Editorial do Boletim APA de março de 2024 | “50/500/50/500/50”, por Cristiana Bastos

50/500/50/500/50

Estranha coincidência, ou talvez não, traz-nos nestes dias um convergir de números redondos de cinquenta, e quinhentos, a quantificar coisas importantes, umas que se celebram, ou comemoram, ou lembram, ou condenam, ou nos fazem pensar. Vou tentar chegar a esta última, a de nos fazerem pensar, mas não sem antes abrir uma pequena referência a celebrações e comemorações. No momento em que escrevo, ainda em Março, passam por mim cravos vermelhos em formatos digitais e materiais, em papel, em plástico, em vidro, em cerâmica, e até em crochet, feitos por mãos amorosas e habilidosas, a lembrar que cravos vermelhos de verdade passaram de mão em mão e de arma em arma num dia de revolução pacífica; a lembrar que cravos vermelhos simbolizam um dia de mudança, transformação, fim, princípio – o 25 de abril de 1974, quase-quase a fazer cinquenta anos. De fim e de princípio: fim de outros quase cinquenta anos que culminaram naquele cinzento baço de um regime que se arrastava em censura e imobilismo, para uns, enquanto para outros se exprimia em sangue, verde-camuflado, armas, tiroteios, chacinas, contradições, agonias, impossibilidades, no remate de um ciclo mais longo de quase quinhentos anos de ocupação colonial em terras africanas. Desse lado o fim, dando lugar a múltiplos começos com dinâmicas nacionalistas que fizeram a sua própria história. E do lado de cá um princípio, uma explosão de possibilidades, alegrias, aventuras, explorações. Não nos faltam as narrativas e memórias, não nos vão faltar testemunhos, visualizações e áudios quando daqui a umas semanas celebrarmos o cinquentenário dessa grande data.  E não vão faltar balanços, retrospectivas, análises do que foi feito e ficou por fazer – do que se alargou no acesso à saúde, educação, segurança alimentar, dignidade, envolvimento político; do que se errou em medidas apressadas e parciais no sistema produtivo e distributivo; e do que falta ainda para garantir que os termos da dignidade, justiça e acesso não retrocedam e continuem a melhorar. Sinais preocupantes vêm do interior da casa da democracia: falar contra ela rende em números também redondos. Sinais preocupantes vêm de fora, onde vizinhos de fronteiras consolidadas atacam e destroem quem está do outro lado. Sinais preocupantes vêm dessas outras fronteiras em que gado, plantações e capital intoxicam povos indígenas, as suas florestas, a terra, o ambiente, o futuro. Sinais preocupantes vêm de dentro de nós, no apartamento ou monte mais próximo onde camaratas de alta rotação albergam quem se desfaz nas entregas das plataformas de comida feita e de boleias, ou se conta como braços de reserva para as estufas, searas e pomares, traficados ou crentes na sua livre escolha.  Poderíamos arrolar cinquenta ou quinhentos sinais preocupantes, ou pelo menos pontos de reflexão que nos remetem para a fragilidade do que conhecemos e nos obrigam a pensar, a ponderar, a analisar, a intervir, e, sublinho, a cuidar. Pensemos antes no que temos a cuidar, e façamo-lo todos os dias: cuidar da democracia, da liberdade, da possibilidade de usarmos o pensamento, a observação, a análise, a crítica, mantendo, povo da antropologia que somos, sempre essa capacidade de empatia, indagação, deslocação, relocação, transformação, essa lucidez que nos mantém à tona quanto tudo parece tornar-se indecifrável.


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