A virada etnográfica do Motelx | Festival no Cinema S. Jorge em Lisboa, de 09 a 15 de setembro, 2025

Hoje que estou à parte, percebo que realmente era uma mulher muito só no meio de tantos homens. Na altura, eu lutava, esbracejava, mas lutava com eles como igual, não pensava que era uma mulher a lutar contra os homens. Nessa altura, não punha o problema desta maneira. Pensava que tinha os mesmos direitos que eles, mas não era por causa de ser mulher, era por ser uma profissional.


As palavras são de Noémia Delgado, cineasta que se estreou como realizadora no filme Máscaras, sobre os rituais de inverno em Trás-os-Montes, e cuja carreira encompassa várias funções e um interesse no fantástico. Máscaras, narrado pelo seu então marido Alexandre O’Neill, tive a consultoria de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira, antropólogos, é um filme etnográfico. Como na sua vida profissional, Delgado fez uma incursão num universo predominantemente masculino para filmar os rituais dos rapazes mascarados, por alturas do Natal, o que não deve ter sido pêra doce. Não é por isso estranho que o prémio que o Motelx cria nesta edição para homenagear mulheres no terror, ainda escassas num universo que continua predominantemente masculino, seja também uma homenagem a esta percursora do cinema do fantástico de pendor etnográfico. Gale Ann Hurd será a primeira recipiente deste prémio cuja masterclass, apresentada na esplanada da Cinemateca, terá como moderadora Heidi Honeycut (autora de I spit on your celluloid). Hurd, produtora e argumentista do filme The Terminator, continuou a colaboração com James Cameron como produtora em Aliens e The Abyss. Será certamente um prazer ouvi-la falar do seu percurso cinematográfico.
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E ainda nos limites do sagrado e do profano, o Motelx prepara uma secção de filmes apresentados No Quarto Perdido, e à qual chamou O Baile das Bruxas. A bruxa, essa figura da mulher a quem era conferida uma qualidade mágica e animal(esca), mais natureza do que cultura, muitas vezes desmontando e rejeitando aquele que era o significado estabelecido de ser mulher, frequentemente expulsas das comunidades, como pharmakoi, para que fosse restabelecida uma ordem social e natural que havia sido interrompida pela sua presença.
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Texto de Patrícia Azevedo da Silva