9 de Maio, Dia da Europa | Mensagem de Manuela Boatcă

Assinalando o Dia da Europa 2024 a convite da APA, Manuela Boatcă envia à comunidade antropológica portuguesa uma mensagem sobre a europeidade (ver abaixo) e partilha o seu artigo “Thinking Europe Otherwise: Lessons from the Caribbean”.

Celebrado como um dos mais influentes pela Current Sociology e pela Sociological Review, porém menos divulgado entre as comunidades de antropologia, este artigo reflete sobre a natureza crioula da Europa e as fundações colonialistas da noção de território europeu, merecendo ser lido ampla e transdisciplinarmente.

A divisão do trabalho nas ciências sociais, que remonta ao século XIX, tem servido de impedimento a uma abordagem verdadeiramente transdisciplinar à Europa e europeidade. Ao confinar o estudo da Europa moderna à sociologia e o dos contextos não modernos – entendidos como não europeus – à antropologia e ao orientalismo, as fronteiras entre as disciplinas reflectiram a sua cumplicidade com o colonialismo europeu e cimentaram-no. Ao encarar a antropologia e a sociologia como separadas e por sua vez distintas da história, da ciência política e da economia, foi também possível construir uma noção higienizada da Europa: uma noção da qual está ausente, na sua maior parte, a história imperial e colonial do continente e que exclui em grande medida a experiência histórica e as realidades actuais dos seus Outros internos no Sul e no Leste do continente, deixando também sob silêncio o continuado controlo por parte de Estados europeus sobre territórios não europeus, das Caraíbas ao Oceano Índico. Parte da nossa tarefa transdisciplinar colectiva enquanto cientistas sociais consiste em mostrar como essas hierarquias foram produzidas e são a base das Europas desiguais de hoje, em questionar a forma persistente como se faz equivaler a Europa ao projeto da União Europeia, mas também em reconectar este último com o projeto euro-africano e a descolonização do pós-guerra a que remonta o Dia da Europa. Em suma, a nossa tarefa consiste em refletir consistentemente sobre os envolvimentos globais da Europa, tanto historicamente como no presente.

Manuela Boatcă – Maio de 2024