Comunicado da APA | Práticas de uma antropologia empenhada: risco, resistência e cidadania. 

Notícias que gostaríamos de não ter, mas vão acontecendo. Uma antropóloga é processada pelas forças policiais por denunciar o carácter violento da expulsão de famílias ciganas de um local onde acampavam no Alentejo. A antropóloga faz o seu trabalho, pesquisa e pratica, envolve-se nas dificuldades e no drama atravessado por famílias em vulnerabilidade extrema, defende-as por um dos meios que melhor conhece, o da palavra. Agora, ela está também em situação vulnerável. Isto não é novo: a antropologia pode também ser uma prática de risco, por vezes fatal. Notícias que gostaríamos de não ter. Um colega assassinado por defender populações indígenas da Amazónia sujeitas a assaltos continuados de garimpeiros e fazendeiros. Uma colega autuada por demonstrar direitos ancestrais de outras populações indígenas a territórios disputados. Outro colega perseguido e ameaçado de morte por denunciar violências e injustiças nesses lugares de disputa desigual por territórios. Outros ainda humilhados, apagados ou destituídos por defenderem causas fracturantes e denunciarem interesses instalados. A antropologia é, também, prática de risco como o são, nos tempos que correm, investigação e estudo em todas as frentes- questionados pelo surreal mundo das fake-news, do terraplanismo, da demagogia crescente. Porque a antropologia é, também, prática de cidadania, não nos vamos demover, não nos vão intimidar: estamos aqui e estaremos, na distância e na proximidade, na certeza e no risco. Vimos de longe e vamos para longe, e estamos sempre perto. 

Associação Portuguesa de Antropologia