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N.º 41 (setembro 2020)

Tornar a Antropologia Pública. Breves notas sobre o blogue Confinaria. Etnografias em tempos de pandemia.

Foi com muito gosto que aceitei o convite da Direção da APA para escrever este editorial sobre o blogue Confinaria. Etnografias em tempos de Pandemia. Embora o faça simultaneamente a título pessoal e na qualidade de membro do respetivo Conselho Editorial, é necessário dizer que esta iniciativa do CRIA resultou do trabalho de uma pequena equipa que o concebeu e o vem editando desde o início de abril (cf. link) a partir de um desafio lançado pelo colega Humberto Martins na sequência da instauração do estado de emergência em Portugal.
Como se afirma no texto de apresentação, Confinaria “[é um] blogue coletivo onde se partilham reflexões e experiências sobre os tempos vividos em contexto de pandemia causada pelo COVID-19 e que servirão para memória futura e apreciação retrospetiva destes tempos excecionais (…) produzindo registos que darão azo no futuro e retrospetivamente a uma apreciação mais completa, complexa (porque feita de múltiplas perspetivas) e necessariamente plural destes dias.” Assumidamente optou-se por um estatuto editorial muito aberto, em dois sentidos: aberto relativamente aos formatos das contribuições, não as limitando exclusivamente ao texto escrito mas incluindo o ensaio fotográfico, o vídeo, o desenho/pintura e o som. Para acomodar textos mais longos e reflexivos, foi também criada a categoria ensaio; e também aberto no sentido de não ficar restrito a investigadores e investigadoras do CRIA, aceitando colaborações de colegas de outras instituições, universidades e unidades de investigação de Portugal e de outros países. Embora a esmagadora maioria das contribuições venham da Antropologia, demos espaço a outras áreas disciplinares desde que dialogassem com a disciplina ou estivessem ancoradas em trabalho etnográfico sobre temas como a saúde mental, o isolamento ou as novas formas de interação social impostas pela pandemia. Houve recusas quando os contributos não encaixavam nos objetivos do blogue (por exemplo textos que não diziam respeito ao tempo de pandemia ou confinamento) ou textos (e outro tipo de contribuições) cujos argumentos não eram claros ou estavam informados por visões normativas ou prescritivas da vida social e do momento excecional que estamos a atravessar.
Um aspeto que vale a pena salientar tem a ver com o número elevado de contribuições oriundas do Brasil, quiçá evidenciando a rede densa de relações que existe entre a antropologia portuguesa e brasileira, ou talvez melhor, a que é feita em Portugal e no Brasil. A pluralidade de registos, desde os mais impressivos aos mais reflexivos, desde os mais clássicos (textos) aos mais experimentais (vídeos, desenhos, sons) torna a navegação pelo blogue uma experiência caleidoscópica e seguramente fragmentada. Uma espécie de diário produzido a muitas mãos e que reflete a diversidade e pluralidade de experiências do confinamento a partir de múltiplas perspetivas e locais geográficos. E, também, seguramente, uma forma de tornar a antropologia mais pública. Para finalizar deixo um convite às/aos sócias/os da APA a visitar e a enviar contribuições/reflexões sobre os tempos de pandemia que estamos a viver. Juntos.

Filipe Reis
ISCTE-IUL/CRIA, Sócia da APA

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N.º 40 (maio 2020)

Os refugiados, o COVID 19, as políticas oficiais, a sociedade civil e a pesquisa em antropologia. Com quantos fios se tece um enredo?
No dia 19 de Abril último soou o alarme na comunicação social, dando conta do 1º caso de COVID-19, entre os 200 refugiados residentes num dos hostels no centro de Lisboa. Este primeiro caso despoletou a curiosidade dos jornalistas e da população em geral, sobre as condições de vida degradantes nestes estabelecimentos residenciais. Foram, inclusive, publicados alguns vídeos online, sobre a exiguidade extrema das instalações, quartos minúsculos partilhados por vários refugiados impossibilitados de cumprir a distância física obrigatória, wc e cozinhas insalubres, insuficiência de alimentos e inexistência de produtos de limpeza e higiene. Evidentemente, os refugiados não estavam ali por desejo próprio, mas porque aguardavam a decisão do SEF (nalguns casos há mais de um ano), sobre o seu pedido de asilo.
Existem instituições oficiais responsáveis pela “gestão” da vida dos refugiados até ao momento em que alcançam a sua autonomia, cada vez mais difícil, já que são sistematicamente empurrados para uma vida de exclusão social. Infelizmente, a este caso, muitos se seguiram: mais hostels foram sendo “descobertos” e mais requerentes de asilo testaram positivo à COVID-19, sendo enviados, como pacotes a quem é negada a humanidade, de uma base militar para outra, de um hostel, para casas supostamente longe dos olhares percutores, mas à mercê de atitudes racistas e xenófobas. Alguns deles (os supostamente infetados com o vírus) “confinados” na Mesquita de Lisboa, sem garantia de condições mínimas de dignidade, nem direito a visitas, tendo-se até registado alguns incidentes, fruto do desespero e frustração, contribuindo até para o agravamento da sua saúde mental, já de si degradada.
No entanto, e o que pretendo aqui salientar, é a importância crescente do papel da antropologia na pesquisa das margens, e à margem dos poderes instituídos, já que contribui para desvelar as contradições entre as narrativas discursivas políticas e institucionais e as práticas no terreno, onde se situam as populações marginalizadas, como os refugiados, por exemplo. É estando, assumidamente, nesse lugar periférico, que podemos dar conta dos sistemáticos ataques aos direitos humanos; da invisibilização e desumanização forçada a que são submetidos tantos refugiados e imigrantes, inclusive na nossa sociedade democrática e aparentemente humanista e inclusiva (a avaliar pelos discursos governamentais).
Tratando a antropologia de entender a diversidade cultural, em todas as suas variantes, podemos também constatar que, ao contrário do que é frequentemente afirmado pelas instituições e técnicos burocratas, a dificuldade de relacionamento entre portugueses e refugiados não se deve à alegada “diferença de culturas”, ao “nós versus eles”, mas sim à própria cultura institucional que existe em Portugal, fortemente ancorada em vícios hierárquicos, mecanismos burocráticos enferrujados; falta de vontade estrutural para diálogos frutíferos; prepotências transversais e ausência generalizada de uma cultura verdadeiramente democrática de respeito pela diferença. 
Idealmente, caberia aos antropólogos um papel de mediadores privilegiados entre o centro e a periferia. É, em parte, a nossa função, é também aí que se sustenta o nosso saber é um dos nossos contributos para a sociedade. Mas é aí que também se reflete o difícil papel da antropologia, em particular a mais interventiva, mais “engaged”: os poderes públicos não toleram a desconstrução das suas narrativas, tão eficazmente montadas e (até então), livres de pesquisas em profundidade. Nesse momento, em que questionamos e partilhamos, publicamente, o resultado das nossas investigações que intuímos o que nos espera: aquela sensação de eminente bloqueio, proveniente das alas institucionais.
Perante isto, precisamos sinceramente, de refletir os modos de fazer antropologia (para além da produção meramente académica) no olho do vulcão das injustiças sociais.
 
Cristina Santinho

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N.º 39 (janeiro 2020)

Benjamim Enes Pereira – Obituário
Benjamim Enes Pereira fez parte da equipa fulgurante que fundou a moderna antropologia portuguesa. Sob a coordenação de António Jorge Dias, o grupo, constituído por Margot Dias, Ernesto Veiga De Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Enes Pereira iniciou os centros de investigação em etnologia, fez pesquisa etnográfica por todo o país e recolheu coleções que permitiram à fundação do actual Museu Nacional de Etnologia. Benjamim, o mais jovem de todos, foi o ultimo elemento a integrar a equipa e tornou-se o grande museólogo, o artista encenador das deslumbrantes exposições que o Museu de Etnologia realizou ao longo de décadas.  Entre 1963 e 1990, data em que se aposentou, foi responsável pela concepção, execução e montagem de todas as exposições realizadas no Museu de Etnologia. Com um sentido estético fora do comum, concebe, entre outras, as mostras Modernismo e Arte Negro-Africana , Escultura Angolana em Portugal, Índios da Amazónia (com Vítor Bandeira), Nas Vésperas do Mundo Moderno (com Jill Dias) e O Voo do Arado. Benjamim Pereira foi um etnólogo de excelência; com Ernesto Veiga De Oliveira e Fernando Galhano escreveram centenas de artigos científicos e livros que teceram o retrato do país. O seu trabalho foi essencial na concepção do Museu de Paredes de Coura e no Museu da Luz, entre outros. 

Uma das suas obras iniciais,  à qual dedicou vários anos de pesquisa logo após a sua integração na equipa, e que foi, como costumava dizer,  a sua “licenciatura em Antropologia”  constituiu um marco importante no campo da Etnografia Portuguesa; em Bibliografia Analítica da Etnografia Portuguesa, editado em 1963 pelo Instituto de Alta Cultura, Benjamim passa em revista de uma forma sistemática os vários textos escritos no âmbito da etnografia portuguesa até ao início da década de 60, catalogando-os por temática e fornecendo para cada um deles um resumo, anotações e comentários imprescindíveis para quem se debruce sobre tais matérias.
 
O trabalho de Benjamim Enes Pereira em prol da divulgação da Etnografia e da Antropologia Cultural, como ciências sociais imprescindíveis, e sobretudo, na valorização da cultura portuguesa, continuou,  mesmo após a sua saída do activo, na colaboração com museus locais e regionais e instituições nacionais e internacionais, a nível museológico mas também de consultoria científica, de que são exemplos o  Centro Cultural Raiano, em  Idanha-a-Nova; o Museu de Francisco Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco;  o Museu Regional de Paredes de Coura, em Viana do Castelo; o Museu do Canteiro, em Alcains, Castelo Branco; o Museu de Boticas, em Montalegre; o Museu da Terra e do Mar, na Carrapateira; o Museu do Lindoso;  o Núcleo Museológico de Santo Estêvão, em Tavira; o Núcleo Expositivo de Lagares da Beira; o Museum fur Voelkerkunde, Hamburgo, na Alemanha. 
 
As últimas grandes realizações de Benjamim Pereira, o Museu da Luz, na aldeia da Luz, em Mourão, aberto ao público em 2003, a nova galeria do Museu Abade de Baçal, inaugurada a 15 de Dezembro de 2006, bem como a colaboração na obra Uma imagem da Nação. Traje à Vianesa (2009), constituem os testemunhos mais recentes da sua obra, que mostram bem a sua incansável actividade, e a projecção do seu trabalho, quer a nível nacional quer internacional.
 
Benjamim nasceu a 25 de Dezembro de 1928 e desapareceu a 1 de Janeiro de 2020. Viveu os últimos anos na paz do mar e da paisagem de Montedor (Viana do Castelo), onde tinha nascido e vivido a sua infância e juventude minhotas. Era um homem deslumbrado com a riqueza etnográfica do país, apaixonado pela vida e pelas pessoas. É assim que nos vamos lembrar dele.

Clara Saraiva
Presidente da APA

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N.º 38 (dezembro 2019)

Porque são necessários os antropólogos? (Why the World Needs Anthropologists?)
O concurso para os projectos FCT (em todos os domínios científicos) foi anunciado, depois de um interregno significativo (praticamente três anos) e não obstante o facto de outras linhas e programas de financiamento mais específicas (e.g. temáticas, regionais) terem, entretanto, sido propostas. Muitos de nós irão novamente a escrutínio, tentando a aceitação dos seus projectos. Na ‘Visão Geral e Objectivos’ do concurso fala-se em “contribuir para a realização das aspirações globais definidas nos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas”. Seguramente que as ciências sociais, e a antropologia em particular, poderão ter um papel importante neste paradigma de ciência e de mundo que não pode mais ser feito contra tantas pessoas (e tudo o resto) de formas predatórias em termos ambientais, sociais, económicos e políticos. Não só porque a antropologia produz um tipo de conhecimento imprescindível (de proximidade às vidas concretas, com base numa epistemologia da relação com as pessoas e as coisas, de conhecimento in loco dos fenómenos – menos no gabinete e à distância dos modelos e estatísticas). Mas igualmente porque, justamente por aquelas razões, a antropologia tem sido capaz de identificar fenómenos e vidas que só muito mais tarde são valorizadas (pelas disciplinas hegemónicas – e.g. economia) e dar voz aos saberes e conhecimentos ditos locais/indígenas/tradicionais, também eles hoje tão valorizados por esses outros saberes hegemónicos (pelo menos, numa retórica ou cosmética da participação e democratização da produção de conhecimento). A produção de saber e de conhecimento terá sempre que ser uma aventura ética e responsável do ponto de vista social e ambiental. E a diversidade dos modos de produzir conhecimento terá que ser salvaguardada tanto quanto a diversidade biológica e cultural. Esperemos que a ciência que se quer (impor) não seja apenas aquela que, justamente, tanto contribuiu e contribui para o estado de coisas actual em termos sociais, políticos, económicos e ambientais.
Está igualmente prevista, como meta governamental, a contratação até 2023 de 5000 doutorados (cientistas) ao abrigo do programa de estímulo ao emprego científico. Boas notícias? Um bom ambiente para a ciência em Portugal, e mais em particular para a antropologia? É preciso aguardar; para já, neste concurso FCT, os projectos em antropologia serão apreciados no painel de avaliação de sociologia. Resta conhecer o júri, mas a história repete-se e tanto tempo se tem gasto em reuniões com Ministérios, FCT, secretarias de Estado. Um diálogo de surdos, na verdade. A tirania da estupidez do argumento burocrático-administrativo do Frascati e da necessidade de ter dados comparáveis à escala europeia prevalece, mantendo a antropologia ‘escondida’ sob o manto da sociologia.
No entanto, ao recuperar o título da conferência anual levada a efeito pela EASA Applied Anthropology Network (e que em 2018 passou por Lisboa) faço-o porque me parece que é também uma pergunta que nos deve implicar numa reflexão conjunta necessária, entre nós, os antropólogos. Diria que a pergunta não é só, ou tanto, uma provocação para fora, mas um desafio para os antropólogos, para um autoquestionamento que se exige em tempo de candidaturas a projectos, de renovadas ameaças institucionais e, diria, de algum cansaço que muitos vão revelando. Valerá a pena lutar mais? Ou serão inevitáveis a marginalização total e a diluição da antropologia na sociologia ou no campo mais largo das ciências sociais? Por isso, a pergunta impõe-se – porque serão necessários a antropologia e os antropólogos? Desde que criámos este editorial que muito tem sido escrito na defesa desta área de conhecimento, da disciplina do trabalho e do papel dos antropólogos. Dentro e fora da academia. Alguma autocrítica foi produzida, caminhos e possibilidades avançadas, desafios sugeridos, futuros inventados. Não é fácil lidar com tantos ‘gigantes moinhos’ a diferentes escalas e em diferentes contextos (Ministérios, Universidades, Departamentos, Comunicação Social…) ou, mesmo, quando alguns próximos de nós (literalmente) preferem assobiar para o lado.
Porventura, seguindo o exemplo da sua congénere do Estado Espanhol (ASAEE), será importante que a APA crie grupos de trabalho, comissões, colectivos de antropólogos que consigam sistematizar e fortalecer formas de luta (afirmação) em diversos domínios. Será e é seguramente crucial que as interlocuções da antropologia em termos de actividade, projectos de investigação, discurso público, produção de conhecimento e transferência de conhecimento não se façam só no enquadramento FCT/Academia/Universidades. É preciso ir além. É preciso uma afirmação mais abrangente e com novas interlocuções (e.g. alternativas de financiamento de projectos). E, neste sentido, a responsabilidade também é de todos nós (e muitos têm-no feito) na procura de parceiros, apoios, possibilidades de fazer antropologia para além de contextos e circuitos mais óbvios, não esquecendo o que é fazer antropologia e sem nunca abdicar dos pressupostos do conhecer antropologicamente. A pergunta, portanto, é também uma pergunta que os próprios antropólogos têm de tentar responder ou, pelo menos, manter sempre como farol da sua acção. Não sejamos nós os servos voluntários da nossa condição de marginalidade!

Humberto Martins
Vice-Presidente da APA

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N.º 37 (novembro 2019)

Aparições e ocultações

Três homens pendurados por cordas na fachada de um prédio. A imagem surge-me enquanto subo a persiana da sala, numa manhã húmida de outono. Vejo que trabalham, introduzindo remendos em paredes gastas pelo tempo e pela meteorologia. Procuro, com o olhar, os suportes das cordas, visíveis na berma do telhado, temendo pela segurança daqueles homens. Olho de novo, agora apreciando a beleza da composição, nas suas formas e cores. Com o ecrã do telemóvel, procuro o enquadramento certo e tiro a fotografia. Imediatamente contemplo o resultado, a imagem capturada que vou poder guardar – tanto tempo quanto a tecnologia (e a minha vontade) o permitirem. Comparo-a à imagem que se desenrola ainda à minha frente, em movimentos que poderiam ter sido captados no modo de vídeo, que não usei. Daqui a algumas horas, os homens darão o trabalho por terminado e da sua presença nesta parede só restará a fotografia. Poderei voltar a ela mais tarde – para mostrar a amigos, esperando deles um elogio aos meus talentos fotográficos; para ilustrar um argumento sobre a chamada ‘reabilitação urbana’ da cidade de Lisboa (mais lesta a ‘conservar’ fachadas do que os seus interiores); para articular, como procuro aqui fazer, algumas ideias sobre a cultura do ver e do mostrar – uma cultura que sempre existiu, muito antes das câmaras fotográficas e de filmar, percorrendo a história em múltiplas ‘tecnologias do olhar’ (trompe-l’oeil, dioramas, panoramas, estereoscópio, etc.) e outras expressões socialmente enredadas do ‘olho nu’.
É comum associarmos a antropologia visual à produção e ao estudo de filmes etnográficos. Mais do que a fotografia (ainda que muitas vezes em conjugação com esta), o filme tem sido amplamente adoptado por antropólogos e investigadores de diversas áreas como um instrumento de produção de conhecimento. O filme etnográfico tem tantos anos quanto o cinema, partilhando os arquivos de imagens em movimento com os clássicos da ficção e todo o tipo de documentários, fragmentos e filmes anónimos que lograram sobreviver ao duplo teste do tempo e do descaso. Filmes etnográficos de produção recente e antiga podem ser vistos, em formato digital, nos novos mostruários cibernéticos que os colocam em linha com acesso generalizado. Podem ainda ser vistos em mostras e festivais. Só para dar dois exemplos, Lisboa recebeu, este ano, a mostra de filme etnográfico do VII congresso da APA e vai receber, no próximo, uma mostra semelhante, no âmbito do XVI congresso da EASA. Estas iniciativas permitem-nos continuar a reflectir sobre esse (obscuro?) objecto de desejo de antropólogos, investigadores e públicos que é o filme etnográfico. Afinal, o que levará os primeiros a quererem vestir a pele do ‘etno-cinegrafista’, malgrado os desafios técnicos, económicos e pessoais que terão de enfrentar e os resultados tantas vezes parcos, vagos ou mesmo decepcionantes com que, no final, serão brindados? E o que levará os espectadores (mesmo os mais aficionados) a sujeitarem-se, voluntariamente, a projecções de imagens muitas vezes toscas e arrastadas sobre temas frequentemente incompreensíveis a partir de perspectivas nem sempre evidentes? Poderão os actuais tempos de ‘audiovisualização do mundo’ (para usar a expressão de Humberto Martins) explicar, por si só, o aparente interesse, quiçá intensificado, pelo filme etnográfico?
Termino, voltando à fotografia e à cena que instigaram este texto. O meu gesto de captura de um instante visual inesperado trai, não apenas o meu interesse profissional pelas ‘saliências visuais’ do quotidiano, mas também a condição de existir num entorno de estímulos visuais (na verdade, sinestésicos) permanentes, que a cada momento renovam esse meu interesse. Olhar, mostrar, ver e ser visto são uma parte constitutiva do estar no mundo. São também uma parte significativa do fazer etnográfico, que nos impele (por mais pós-empiristas que queiramos ser) a perscrutar os objectos do nosso estudo (singulares ou compostos, materiais ou conceptuais) a partir das aparições e ocultações que os assistem e lhes dão forma, com ou sem o auxílio de uma câmara. Num mundo onde visualidade e visibilidade nunca são apenas o contrário de invisualidade e invisibilidade, cabe à antropologia (visual? social? cultural? biológica? antropologia ponto final?) explorar teórica e etnograficamente essas matizes. É um desafio que vai muito além das habituais discussões centradas no filme etnográfico e que requer um diálogo aberto e franco – conduzido de igual para igual – com áreas de conhecimento tão diversas como os estudos de cinema, a história da arte, a filosofia da percepção e os estudos visuais. A essas áreas de conhecimento saberá, certamente, a antropologia também levar boas perguntas e bons instrumentos de análise

Sofia Sampaio
Investigadora em Estudos Fílmicos e Antropologia da Imagem.

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N.º 36 (outubro 2019)

A união faz a força

A Antropologia Biológica contemporânea estuda a evolução biológica e o comportamento dos seres humanos e restantes primatas, bem como dos respetivos antepassados. Nesta abordagem holística é fundamental a integração das dimensões biológica, social e cultural da humanidade.
Em Portugal, a mudança da clássica Antropologia Física para a nova Antropologia Física ou Antropologia Biológica (AB) começou a fazer-se, de modo mais consistente, na década de 1990. De notar que a designação inicial continua a ser utilizada em vários contextos apesar das profundas mudanças na disciplina. A título de exemplo, a American Association of Physical Anthropologists só deverá mudar a sua denominação em abril de 2020. Regressando ao território nacional, a criação na Universidade de Coimbra de uma licenciatura em Antropologia (ano letivo 1992/93) com distribuição equitativa de unidades de crédito (posteriormente ECTS) nas áreas de AB e Antropologia Social e Cultural (ASC) reforçou o ensino e a investigação que se fazia até então num reduzido número de cadeiras, tanto em Coimbra como em Lisboa (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Universidade Nova de Lisboa).
A aceitação da nova licenciatura e dos seus licenciados não foi fácil. A dificuldade prendeu-se com o entendimento, maioritário, de que a antropologia é a social e cultural. Enquanto se discutia este assunto, a AB consolidou-se e aumentou a oferta formativa, nomeadamente ao nível dos 2.º e 3.º ciclos. Em consequência, os alunos de doutoramento começaram a procurar financiamento na FCT. Num primeiro concurso de bolsas o painel considerou que o projeto de tese, em AB, não era em Antropologia. Esta situação foi invertida após uma exposição que incluía pareceres de docentes e investigadores de vários países.
A FCT continuou a ter dificuldade em reconhecer a AB e nas avaliações das unidades de investigação os painéis base não costumam incluir especialistas na área, conduzindo o CIAS (Centro de Investigação em Antropologia e Saúde) a expor, recorrentemente, a necessidade de avaliação por pares. Recentemente, com a adoção pela FCT da classificação Frascati, a situação agudizou-se tendo sido retirada a autonomia à Antropologia. Os 134 anos de ensino e investigação universitária em Portugal foram apagados. Nesta nova luta com a FCT e com a Secretaria de Estado do Ensino Superior as irmãs (AB e ASC), tantas vezes desavindas, uniram-se. Contudo, os resultados são parciais uma vez que (ainda) não conseguimos repor a autonomia da Antropologia e o CIAS foi avaliado por um painel completamente alheio à AB.
Apesar do percurso atribulado, continuo a pensar que o diálogo entre a AB e a ASC pode trazer muitos frutos, no ensino, na investigação, na formação dos jovens, na cidadania ativa, na preservação do património e em tantos outros campos.
Espero que as dificuldades sentidas pela Antropologia nos últimos tempos contribuam para o seu fortalecimento.

Ana Luísa Santos
Departamento de Ciências da Vida
Centro de Investigação em Antropologia e Saúde
Universidade de Coimbra

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N.º 35 (setembro 2019)

Esperança, novos desafios e vigilância

Setembro chegado. Para muitos e muitas de nós, tempo de regresso de férias e regresso às universidades onde esperamos e nos esperam novos alunos. À semelhança do que tem ocorrido nos últimos anos, espera-se que os 1º Ciclos de antropologia voltem a encher. Mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos são também lugares de ensino-aprendizagem; portanto, contextos importantes para a afirmação da antropologia. Os responsáveis das universidades exigem-nos; a pressão do mercado há muito que conquistou as universidades. No entanto e apesar do ‘bom desempenho’ das ofertas em antropologia nas universidades portuguesas, saibamos pensar mais além, não sucumbindo perante a ‘frieza dos números’. As universidades não podem apenas ser responsivas aos desejos da procura (e da oferta) numa lógica implacável que aniquila a ‘universalidade’ do saber e a diversidade dos saberes. Saibam e tenham os gestores da academia a sensibilidade para dar à antropologia os ‘espaços’ e o tempo que bem merece.

Após o congresso da APA – avizinham-se já novas e importantes organizações em Portugal. 2020 trará a Conferência bienal da EASA (European Association of Social Anthropology). Um regresso ‘a casa’, uma vez que foi em Portugal que há quase 30 anos se deram os primeiros passos para a constituição desta associação europeia. Projecta-se, no entanto, um novo futuro e olha-se para lá da Europa. Perante desafios sempre renovados (e alguns criados ou alimentados pela crónica estupidez humana) cabe à antropologia um papel e uma responsabilidade de dar a conhecer vidas humanas, mundividências, lugares, sociedades e subjectividades que continuam também a emergir. Também a AIBR (Antropólogos Iberoamericanos en Red) terá o seu congresso em Portugal pela primeira vez. Lisboa e Vila Real, respectivamente, acolherão em Julho milhares de antropólogos vindos de todo o mundo. O tempo não pára!

Os desafios da antropologia não são só epistemológicos; são necessariamente éticos e políticos. Devedores da teoria, da reflexão e do conhecimento cuidado e produzido com método, os olhares antropológicos têm que ser igualmente vigilantes e atentos ao mundo do qual somos parte integrante. Da arena político-partidária mais micro aos planos mais macro teremos também que ter a capacidade de influenciar posição, ajudando a definir políticas de ciência, ensino, saber, identidades, migrações, ambientais, entre outras. As eleições legislativas em Portugal estão também aí à porta. Um novo ciclo político afigura-se. Que lugar para as ciências sociais? Que investimentos? Que valor para a ciência, a investigação, as universidades, os centros de investigação? São temas dos quais não nos podemos alhear. É também aqui, nestas escolhas que fazemos (ou não fazemos) que se joga o futuro da antropologia. Saibamos também nós não virar as costas ao presente e ao futuro da antropologia nestes momentos, sob pena de andarmos depois alguns anos a lamentar o que antes não ajudámos a construir.

Humberto Martins
Vice-Presidente da APA

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N.º 34 (julho 2019)

Responsabilidade
 
A APA fez 30 anos. Celebrados com um congresso que voltou a mostrar a vitalidade da antropologia. Fomos quase 800 partilhando momentos, aprendizagens e conhecimentos. Olhámos ao passado, recuperando memórias de um trajecto de afirmação que, na verdade, tem muito mais do que 30 anos. A Antropologia tem muita história em Portugal e no Mundo. Não é coisa pequena nem insignificante. Desbravámos igualmente o presente porque o mundo insiste em ser lugar de sofrimentos, de diferenças e indiferenças, de desigualdades nos recursos, nos poderes, nas possibilidades de existir e de ser. 2019 é um ano de um calendário desigualmente vivido. E não deixámos de projectar o futuro. Um futuro que nos preocupa. Pelos renovados assomos ditatoriais nos governos desse mundo fora, pelas novas escravaturas do corpo e do pensamento, pelas novas exclusões e sofrimentos infligidos aos ‘outros’ que não são ‘nós’. A História não acabou. Muito pelo contrário. O fim da história é como a utopia do realizador argentino Fernando Birri, um horizonte que sempre se renova – em especial quando dele nos tentamos aproximar ou o queremos fechar.
E preocupa-nos também pelo facto de a antropologia como disciplina e área científica sofrer ameaças institucionais reais. Não tanto como projecto de conhecimento, de arte de aproximação ao outro ou até de empreendimento de diálogo entre diferenças. Aqui, a antropologia fará sempre escola e parece conquistar terreno em muitos campos. A cigueira ou a fé na etnografia estão hoje identificadas e até abusivamente apropriadas em vários lados. A etnografia aparece como substituta admissível da verdade nas várias epistemologias e políticas. As ameaças de que falamos são outras. Vêm desde dentro das academias e dos lugares de regulação e política da ciência. Baixinho, devagarinho, parecendo que nada é, tornam a antropologia uma coisa pouca.
Não, não é! Não nos temos cansado de o afirmar nestes editoriais mas relembrá-lo será sempre uma forma de evitar o esquecimento. A responsabilidade de uma associação como a APA é justamente a de fazer com que estas coisas não se esqueçam. A Antropologia tem um passado, um presente e um futuro que não podem ser negligenciados e anulados. A sua afirmação como área de saber é uma responsabilidade de universidades, departamentos, ministérios, centros de investigação mas também de cada antropólogo e antropóloga, nos lugares que ocupamos, nas tarefas que realizamos, nos actos produzidos, no pensamento e discursos projectados. É um processo de múltiplas responsabilidades e agencialidades que requer participação activa e permanente. É um processo político, portanto, que nos envolve em lutas simbólicas e/ou mais práticas. A produção do conhecimento é apenas a tarefa mais pura e primordial que não esgota o leque das opções de intervenção, sempre com essa mesma utopia, ao jeito de Birri; enquanto desígnio que nos faça caminhar. Essa é a responsabilidade da APA. De representar os antropólogos e as antropólogas, afirmando a antropologia nas academias, nas sociedades, no Mundo. Como projecto de conhecimento desses lados ‘avessos’ que tantos e tantos gostam de ocultar. É também perante a indiferença que a responsabilidade da APA se deve projectar. Porque jamais poderemos sucumbir perante a estupidez.
 
Humberto Martins
Vice-Presidente da APA

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N.º 33 (março 2019)

Por uma Antropologia mais presente, na academia ou fora dela
 
Há poucas semanas, no final de Fevereiro, a APA celebrou a segunda edição da Conferência Raul Iturra, que incluiu no seu programa a sessão pública de entrega dos prémios APA 2018/19, sendo uma das categorias destes prémios, igualmente em segunda edição, a de projectos de intervenção ou de investigação aplicada.
Também recentemente, embora há um pouco mais tempo, em Novembro, a nossa Associação promoveu um Fórum dedicado à luta pela autonomia científica da Antropologia, necessidade sentida pela recorrente e agravada situação de apagamento formal da Antropologia nos sistemas de promoção e avaliação da actividade científica. Como exemplos mais chocantes desse processo, entre muitos que se poderiam referir, estão os programas promovidos pela FCT (como é o caso do Ciência Vitae) ou o Registo Nacional de teses e dissertações académicas (RENATES, da responsabilidade da Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência), que replicam entre nós, por vezes até de forma mais acentuada, o que vem acontecendo noutros âmbitos mais alargados, particularmente no sistema de ciência da OCDE. Procurando aí pela Antropologia, ou nada se encontra ou, premiando a persistência de quem for mais insistente, surge uma vaga sub-alínea da Sociologia (a minha avançada idade e a curta paciência não me permitiram descobrir onde estará camuflada a Antropologia Física).
Se à primeira vista poderemos estar face a duas questões distintas da Antropologia em Portugal, não será difícil encontrar as ligações que as unem e tornam premente a sua abordagem: a pouca visibilidade da Antropologia, na academia ou fora dela, apesar do que se faz e da qualidade que lhe é reconhecida.
Centremo-nos mais, neste momento, na dimensão aplicada da Antropologia, a que os referidos prémios da APA servem de quase única chamada de atenção entre a comunidade da disciplina em Portugal (sobre as fugazes tentativas de enraizar a vertente de aplicação da Antropologia na academia, a partir dos casos frustrados da UTAD e da Fernando Pessoa, veja-se o texto de Xerardo Pereiro no n.º 2 de 2014 da Etnográfica). Olhando para esses prémios, ressalta simultaneamente a existência de poucas candidaturas (apenas quatro) e a amplitude de áreas de intervenção onde a Antropologia esteve presente, por si só ou como parte plena de equipas multidisciplinares: no apoio escolar a crianças de famílias imigrantes, na criação de circuitos de proximidade a populações idosas, no acompanhamento de mudanças nutricionais e de perda de bases alimentares tradicionais, na construção de redes de apoio a artesãos.
Cada um de nós poderá evocar, certamente, muitos outras situações equivalentes e ampliar significativamente o âmbito das intervenções de antropólogos na aplicação dirigida do seu saber disciplinar, das suas metodologias próprias e das suas reflexões e análises críticas e antropologicamente informadas.
Repisemos o óbvio: desde o seu início histórico, as investigações e teorizações dos antropólogos sempre tiveram uma extensão aplicada para lá da academia, fosse nos projectos coloniais, internos ou de expansão e construção de impérios, fosse na aplicação de políticas públicas, fosse como reportório de intervenções pessoais, de carácter profissional ou sob motivação activista.
Nada de novo, portanto, nesta questão. Seja em intervenções de emergência, onde a acção dos antropólogos pode ser mais notada e solicitada, como acontece com as migrações e populações refugiadas, com os conflitos étnicos, de discriminação social ou dos direitos de minorias, ou nas permanentes crises escolares, seja em tantos outros campos, de eventual menor urgência mas nem por isso menos emergentes, do património cultural às políticas ambientais, das mudanças demográficas aos novos modos de vida, da assessoria organizacional às políticas autárquicas, os antropólogos estão presentes como profissionais qualificados e, muitas vezes, com contributos particularmente relevantes.
Raramente o fazem, no entanto… enquanto antropólogos identificados como tal. A profissão, enquanto descritor estatístico, até está prevista, independentemente da discussão que a sua descrição possa justificar, como acontece na Classificação Portuguesa das Profissões, produzida pelo Instituto Nacional de Estatística e que constitui, segundo o INE, “um instrumento fundamental para as estatísticas sobre profissões, quer em termos de observação, análise, consolidação de séries e de coordenação técnica estatística, quer para a comparabilidade estatística a nível europeu e internacional em todos estes níveis comuns.” Mas tentemos concretizar essa opção profissional nesse exemplo de anacronismo, nestes tempos de ideologia neo-liberal e de promoção da flexibilidade laboral, que é a lista de profissões admitidas pelo fisco português (e quantas – e quais? – instituições têm nos seus quadros de pessoal a categoria de “antropólogo”?). Aí, duplicando o que se referiu para o sistema científico nacional, resta-nos a camuflagem da Sociologia ou da Arqueologia… a inevitável invisibilidade disciplinar.
E isto é mais, muito mais, que um serôdio regresso à procura de uma afirmação identitária que poderia remeter para os anos 80 do século passado. Esta(s) invisibilidade(s), ou não-autonomia disciplinar, tem inevitáveis efeitos no reconhecimento da Antropologia, na procura dos cursos universitários pelos jovens estudantes, no apoio aos projectos de investigação, na solicitação profissional aos antropólogos (basta ver o que se passa, na prática, na elaboração de candidaturas ao registo de manifestações do património imaterial, apesar do resguardo que se poderia encontrar na legislação dedicada, especialmente na Portaria n.º 196/2010, onde se explicita a Antropologia como a formação específica que deve sustentar a elaboração desses dossiers, ou na participação nos procedimentos de avaliação ambiental nos factores sociais e patrimoniais, por exemplo).
Internamente, esta situação é ainda um entrave à exigível fluidez das dinâmicas reflexivas entre o que se poderia invocar, de outros campos, das relações entre teoria e prática (atente-se a incipiente presença de módulos de formação dirigidos à prática profissional dos jovens antropólogos nos nossos cursos universitários).
É, afinal, menos um problema da Antropologia aplicada e mais um problema, afinal, da presença social da Antropologia. E tem que se procurar resolvê-lo, ou o custo da sua persistência pode tornar-se, cada vez mais, insuportável.
 
Carlos Simões Nuno
Sócio da APA

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N.º 32 (fevereiro 2019)

Entre o dourado e o verdejante, os contrastes do acesso aberto às publicações científicas

Quando, no verão passado, foram conhecidos os graves abusos e exploração laboral associados ao funcionamento do HAU – Journal of Ethnographic Theory, ao mesmo tempo que este passava para uma editora comercial depois de se ter alcandorado no firmamento editorial da antropologia com uma retórica de acesso aberto a todos e para sempre (1), houve quem considerasse demonstrada a inviabilidade do acesso aberto enquanto padrão da publicação científica. Do lado da antropologia do trabalho e das classes, designadamente, sublinhou-se então o volume de trabalho qualificado e continuado envolvido num periódico científico e o imperativo da sua justa remuneração (2), bem como o facto de a exploração e precariedade do trabalho serem inerentes ao capitalismo global, incluindo na complexa cadeia produtiva da literatura científica, desde o trabalho intelectual à produção tipográfica (3).

Ora, o caso HAU e estas observações a seu propósito podem ajudar-nos a pensar a obrigatoriedade, a partir de janeiro próximo, da publicação dos resultados de toda a investigação financiada por fundos europeus em periódicos ou plataformas obedecendo a requisitos de acesso aberto (4).

Sabemos que, no seu conjunto, a publicação científica é dominada por umas poucas editoras comerciais, proprietárias dos periódicos de maior valor simbólico, as quais acumulam lucros obscenos apropriando-se do trabalho dos investigadores que escrevem e revêm os artigos, e a seguir extorquindo das bibliotecas assinaturas exorbitantes e que não cobrem todas as necessidades dos utilizadores – sem falar de quem não tem sequer acesso a uma biblioteca académica (5; 6).

Porém, muitas instituições científicas, grupos de investigadores e mesmo algumas editoras constroem outros caminhos. Em Portugal, a antropologia (e outras ciências sociais) tem nesta área um património assinalável, traduzido na Etnográfica e noutros periódicos, assim como na plataforma LusOpenedition, enquanto o sector bibliotecário académico, nomeadamente através da U Minho, esteve na primeira linha da criação de repositórios de produção científica (5). O movimento europeu pelo acesso aberto, que ganhou visibilidade com as declarações de Budapeste em 2002 e Berlim em 2003, tem constituído uma força decisiva. (5, 6)

Ainda assim, Bruxelas começou por abrir uma nova área ao negócio editorial: o designado acesso “dourado”, em que é cobrada ao autor uma taxa para que o artigo saia em acesso aberto. Somando estas taxas às antigas assinaturas, os custos públicos com a publicação científica atingem ou anunciam para breve níveis incomportáveis, mesmo que se alegue tratar-se de uma situação transitória, uma vez que se prevê o desaparecimento das assinaturas (4, 5). O Plan S, referência divulgada em setembro pela Science Europe (associação das agências nacionais de financiamento da ciência, incluindo a FCT), rejeita os periódicos “híbridos” (que publicam simultaneamente em aberto e em fechado) e promete estabelecer tetos para as taxas de publicação. Mas privilegia o acesso “dourado” e, consequentemente, o financiamento público do lucro editorial. Ao acesso “verde” (sem custos para o autor nem para o leitor, por exemplo através de repositórios institucionais ou plataformas como a LusOpenedition) cujo potencial de inovação editorial e diminuição de custos é amplamente reconhecido, o Plan S reserva sobretudo a função de arquivo de longo prazo – possivelmente pouco interessante para as editoras. (4) Mais ilustrativo ainda, a Comissão Europeia chamou o lobo ao redil, contratando para monitorizar a transição para o regime de acesso aberto nada menos que a Elsevier, o epítome do negócio editorial abusivo (7).

Entretanto, é sabido que o poder das grandes editoras decorre sobretudo de um modelo de avaliação de ciência assente em métricas inadequadas, como o fator de impacto dos periódicos (4, 5, 6) – também nesta medida os recursos públicos alimentando o negócio privado – sendo ainda evidente quanto pesa aqui a precariedade do trabalho científico, com os resultados da avaliação a determinar, frequentemente, nada menos que a própria possibilidade de sobreviver trabalhando em investigação (6).

Assim, tal como foi dito a propósito do HAU, o desenho do acesso aberto às publicações científicas é inevitavelmente marcado por configurações globais de trabalho, de classe e desigualdade. A invenção do acesso “dourado” aí está a demonstrá-lo. Ao mesmo tempo, porém, o crescente viço do “verde” mostra que o esforço teimoso nas margens é capaz de construir outras e mais válidas aberturas.

Referências:
(1) Graeber D 2018. HAU Apology. David Graeber website.
(2) Kalb D 2018. HAU not: for David Graeber and the anthropological precariate. Focaal Blog.
(3) Neveling P 2018. HAU and the latest stage of capitalism. Focaal Blog.
(4) Science Europe 2018. Plan S: Accelerating the transition to full and immediate Open Access to scientific publications.
(5) Fonseca, I L 2017. Acesso aberto: modelos, políticas e custos de acesso. Lisboa, FCT.
(6) Science Europe 2018. Challenging the Current Business Models in Academic Publishing: Accelerators and Obstacles to the Open Access Transition. Workshop report.
(7) Tennant J 2018. Elsevier are corrupting open science in Europe. The Guardian 29 June.

Emília Margarida Marques
Sócia da APA

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N.º 31 (janeiro 2019)

O impacto social da Antropologia Brasileira e os tempos sombrios. 

Agradeço a Clara Saraiva, Presidente  da Associação Portuguesa de Antropologia , sua vinda a 31ª Reunião Brasileira de Antropologia em Brasília e de ter me solicitado a redação deste texto sobre a atual situação da Antropologia Brasileira. Este texto está baseado em capítulo que redigi recentemente (Machado, Lia Z. em Simião e Feldman, eds., ABA, 2018).

Nos últimos anos, o cenário político a favor dos direitos fundamentais retrocede. A participação da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e dos antropólogos em nome da defesa dos direitos fundamentais, balizada em seus estudos antropológicos tem tido grande impacto na constituição de políticas sociais e no diálogo com movimentos sociais. Diminuiu, no entanto, nos anos recentes, a capacidade de a antropologia se fazer ouvir pelo Estado para a realização de políticas públicas. Os termos da Constituição Brasileira de 1988 estão em risco no atual contexto político.

O saber antropológico, em grande parte produzido na pós-graduação brasileira, tem alcançado até então impacto social relevante e incomensurável para muito além da academia. Foram inestimáveis os laudos antropológicos de alta qualidade que permitiram o reconhecimento pelo Estado Brasileiro das terras indígenas e territórios quilombolas. Foi inestimável a defesa dos direitos fundamentais e da diversidade cultural organizada pela Associação Brasileira de Antropologia

Já nos anos que antecederam o final da ditadura, a ABA[1] esteve presente na participação da sociedade civil junto à Assembleia Constituinte instalada em 01/02/1987.  Membros das Diretorias da Associação Brasileira de Antropologia participaram e contribuíram para a introdução no texto da Constituição dos direitos indígenas, quilombolas, dos povos tradicionais, e dos direitos culturais e do patrimônio histórico e cultural. Representantes feministas do Conselho Nacional de Direitos das Mulheres criado em 1985, participaram a favor da inscrição da igualdade de gênero no texto constitucional.

Em 2014 e 2015 ocorreram eventos que propiciaram manifestação conservadora contra o fazer antropológico e contra a defesa dos direitos fundamentais.  Duas grandes Frentes Parlamentares  já vinham sendo gestadas no Congresso Nacional desde períodos anteriores: a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) e a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), com características altamente conservadoras.

A FPA foi responsável pelo evento político da instituição de duas Comissões Parlamentares de Inquérito : CPI FUNAI INCRA de 2015 a 2017 buscando o bloqueio das demarcações de terras indígenas e quilombolas; e para tal, fazendo a crítica acusatória ao fazer antropológico dos laudos e estudos técnicos. 

A FPE foi a grande responsável, pelo evento político que ocasionou o interdito do uso da palavra gênero e do enfrentamento à discriminação de gênero e sexualidade no Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024. Ao ser aprovado pelo Congresso Nacional, ficou proibida a presença da palavra gênero no PNE e, em decorrência, foram propostas sucessivas leis estaduais e municipais que buscavam inserir este mesmo interdito.

Se estas duas frentes conservadoras já vinham pressionando os governos Lula e Dilma, alcançaram um poder desmedido com a instalação do Governo Temer em 2016, dado que já estavam profundamente articulados em seus interesses políticos e participavam da mesma perspectiva sobre o entendimento do futuro da nação e do Estado brasileiro. Em 31 de agosto de 2016, o então Vice presidente assume posse de forma definitiva na Presidência da República.  Os órgãos executivos FUNAI e INCRA perderam muito de sua efetividade no cumprimento de suas funções e as demarcações de terras e territórios foram paralisadas.

Hoje, com o Governo eleito Bolsonaro, a FUNAI perdeu o poder de propor e estudar demarcações de terras indígenas e territórios quilombolas. Este poder passou a uma secretaria do Ministério de Agricultura , hoje capitaneado por ex-deputada , participante da Frente Parlamentar Agropecuária.

As duas Comissões Parlamentares de Inquérito denominadas CPI FUNAI-INCRA 1 e 2, se constituíram contra os direitos territoriais e culturais indígenas e quilombolas e acusaram o método antropológico etnográfico, necessário para a elaboração do “laudo pericial” como “parcial”, “não neutro” e, por isso, uma “fraude”. O relatório da CPI não encontra, de fato, “fraudes” O que acusa como fraude é a própria metodologia etnográfica científica no seu cerne, naquilo em que se sustentou o pensamento antropológico nas mais diferentes partes do mundo: a etnografia antropológica exige do pesquisador diálogo profundo e convivência presencial de relativa continuidade com a comunidade pesquisada[2].

É este o método que permite detectar o sentido da relação da comunidade indígena ou da comunidade quilombola com o seu território. Na produção de laudos, serão os sentidos dados pelos povos tradicionais à sua forma de viver, organizar e sentir que configurarão ou não direitos à territorialidade conforme prevê̂ a Constituição. O antropólogo, encontrando evidências científicas na sua etnografia através da observação dos sentidos dados pelos povos tradicionais ao território e na documentação histórica pode assim apontar as razões pelas quais um determinado povo tradicional pode acessar seus direitos.

Dado o impacto acusatório e judicioso das CPI, há um aumento de tensões no campo da antropologia e em especial na interlocução sobre a inserção profissional do antropólogo e sobre os riscos de se fazer pesquisa em áreas conflitadas. Quais os novos demandantes de “pareceres” e “laudos”? Não somente o Ministério Público e os Juízes, mas também os grandes projetos por parte dos órgãos governamentais, os projetos de expansão das empresas e os intentos dos proprietários rurais para expandir áreas sobre terras indígenas ou quilombolas. As tensões sociais crescem.

Enquanto isso, os programas de pós-graduação em antropologia e arqueologia crescem. Passamos de 10 programas de pós-graduação na área de Antropologia e Arqueologia em 2000, para 11 em 2003; 14 em 2006; 20 em 2009; 25 em 2012; 29 em 2016 (32 em 2016, se incluímos os novos aprovados). Estes são dados presentes no Relatório da Avaliação Quadrienal 2013/2016 (CAPES, Ministério de Educação, 2017).

A ABA acabou de realizar sua 31 Reunião Brasileira (bianual) de Antropologia em Brasília que contou com cerca de 2.000 antropólogos/as e estudantes.

O fazer antropológico brasileiro tem se dedicado à construção de problemáticas a serem investigadas no contexto brasileiro, mas também internacional. Fazem-se sempre em um contexto cultural e sócio-político e a partir de uma perspectiva situada. Toda a produção científica, não somente das ciências humanas, parte de uma perspectiva situada mas exige sempre a construção de um objeto de pesquisa e uma metodologia e fundamentos teóricos .

Desde os anos 2000, aumenta o número de pesquisadores que se voltam para o estudo da diversidade cultural em outras áreas e países, podendo-se falar tanto dos estudos Sul- Sul, do Brasil para a África, e do Brasil para os vizinhos da América Latina, e ainda alguns países da Ásia, como também pesquisas e reflexões Sul/Norte, em especial Portugal, Estados Unidos, França e Inglaterra, países onde em geral antropólogos brasileiros buscam sua formação ou estadas pós-doutorais. Continuamos focados no estudo da sociedade brasileira, mas, ao mesmo tempo, trilhamos o caminho das escolhas por objetos de pesquisa e análise em outros espaços nacionais. Fazemos estudos em âmbito internacional.

Volto aos desafios dos tempos sombrios do contexto político. Reflito agora sobre os já anunciados e realizados cortes de recursos do CNPq (Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia). Em informação divulgada em agosto de 2018, o CNPq afirmava que, com um orçamento 33% menor previsto para 2019, o Conselho não conseguirá investir em pesquisas ao longo do ano. Essa foi a solução encontrada para não cortar as bolsas oferecidas pela agência de fomento à pesquisa científica no Brasil. O orçamento cairia de R$ 1,2 bilhão para R$ 800 milhões em 2019, sendo que só as bolsas providas pela agência já custam por volta de R$ 900 milhões. Esse valor é distribuído entre 80 mil bolsistas que se dedicam a pesquisas essenciais para o desenvolvimento científico do país.[3]

Até agora, as bolsas de pós-graduação no país da CAPES e do CNPq se mantêm, mas decrescem. Como pensar a formação pós-graduada sem bolsas (com o risco de assim vir a ser a partir de agosto de 2019) que até então permitiram a dedicação integral de mestrandos e doutorandos? Como pensar a apresentação de trabalhos científicos em congressos internacionais e cooperações internacionais se os recursos escasseiam? Serão possíveis bolsas de pós-doutorado no exterior? Quase zeraram as do CNPq. Diminuíram as da CAPES.

Como pensar a produção bilíngue de nossos textos para avançarmos no caminho da internacionalização quando escasseiam os recursos e deles precisamos para as traduções?

Os riscos são claros sobre as dificuldades e incertezas para o desenvolvimento dos programas de pós-graduação no sentido de aumento de sua qualidade e de sua internacionalização. Ciência, educação, tecnologia e cultura são essenciais para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Direitos Fundamentais imprescindíveis.

Ficam os desafios presentes e futuros para a participação dos antropólogos e da Associação Brasileira de Antropologia na esfera pública e na produção acadêmica internacional. Ficam os desafios para as relações dos antropólogos com os povos tradicionais neste momento em que parecem estar sendo alijados de seus direitos.

Notas:
[1] A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) foi fundada em 1955, a partir de antropólogos e antropólogas que realizaram a sua primeira reunião em 1953 na cidade do Rio de Janeiro. Em sua segunda reunião em Salvador, criaram a ABA. O estudo de comunidades indígenas, rurais e minorias sociais e raciais eram as principais temáticas dos antropólogos e muitos deles se situavam em instituições de pesquisa e museus, nem sempre em instituições universitárias

[2]  Há explicitação neste sentido no Requerimento no 86/2016 da CPI Funai Incra 2.

[3] Disponível em https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/08/cnpq-afirma-que-nao-tera-verba-para-investir-em-pesquisa-em-2019.html

Lia Zanotta Machado
Presidente da ABA

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N.º 30 (dezembro 2018)

Foi no passado dia 9 de Novembro de 2018 que a APA organizou no ISCTE um encontro para debater a autonomia científica da Antropologia. Um momento de reflexão colectiva sobre vários obstáculos – político-administrativos – que a antropologia e os antropólogos portugueses continuam a enfrentar. Não são factos novos, mas parecem ganhar sempre novos contornos com o avançar do tempo, o que nos levou também a pensar a organização do evento como uma forma de angariar novas energias e novos actores para uma causa, a da afirmação de pleno direito da antropologia, que tem de ser assumida por todos os antropólogos e antropólogas que fazem antropologia em Portugal e desde Portugal. Assistiram e participaram cerca de 50 pessoas, incluindo alunos dos vários ciclos de ensino superior, investigadores e professores das instituições portuguesas onde se leciona e ou investiga em antropologia.

A principal questão em cima da mesa prende-se com a subalternização da Antropologia relativamente a outras ciências, tendo como elemento de discussão a utilização pouco cuidada do Manual Frascatti pela principal instituição financiadora pública em ciência em Portugal, a FCT. Concursos para projectos e bolsas individuais são exemplos de como a antropologia é marginalizada e invisibilizada no quadro da ciência e das ciências sociais, em particular, em Portugal e as promessas da FCT em relação à garantia de júris constituídos por antropólogos não têm efeito prático. Afinal, não estão garantidos antropólogos na avaliação de projetos e contratação de doutorados e um dos ‘perigos’ à espreita está no ‘suave e lento’ apagamento da antropologia do espaço público da ciência e ensino superior em Portugal (inclusive nas plataformas online de centros de investigação multidisciplinares).

O diagnóstico está feito e há muito que vários de nós têm vindo a lutar para não ‘deixar’ desaparecer a antropologia. Mas a luta tem que ser quotidiana e em várias frentes, escalas e níveis de interlocução. Por um lado, é preciso continuar a identificar estas situações e denunciá-las, e, por outro, temos que nos envolver activamente nos processos de interlocução junto dos decisores sobre ciência e ensino superior em Portugal e na Europa. De acordo com as conclusões que saíram do referido encontro, as principais linhas de atuação passarão por: (i) audiências com instituições estatais, direção geral do ensino superior e Fundação para a Ciência e a Tecnologia, numa iniciativa que envolverá departamentos, centros de investigação e a APA; (ii) audiências com forças políticas, em particular no Parlamento português e no Parlamento Europeu; (iii) audiências junto das Reitorias das universidades; (iv) continuar a desenvolver fóruns de reflexão sobre a situação da antropologia já com um momento previsto para o próximo Congresso da APA, em Junho de 2019 na FCSH. São acções e forma de luta que só terão consequência se todos estivermos envolvidos e, como tal, convidamos todos os sócios a estar atentos e a contribuir para esta luta.
 
Humberto Martins e Rita Cachado
Direção APA

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N.º 29 (novembro 2018)

O bom momento da Antropologia portuguesa e a sua invisibilização pela tutela

A Antropologia em Portugal é neste momento uma disciplina consolidada. Todos os anos as 4 licenciaturas, 4 mestrados (com 4 especialidades) e os 5 programas de doutoramento se enchem de alunos, a qualidade dos trabalhos que se produzem em resultado de projetos, teses, dissertações e o reconhecimento internacional dos antropólogos e instituições são bem reveladores do bom momento que vive a antropologia portuguesa.

Recentemente, o CRIA e a APA foram parceiros na organização da conferência Why the World Needs Anthropologists onde se mostrou a importância da investigação em Antropologia para o mundo em transformação tecnológica. Em 2020 a conferência da EASA será realizada em Portugal. Assinalando os 30 anos da 1º conferência da EASA que se realizou em Coimbra, a organização da EASA 2020 é levada a cabo por todos os departamentos e unidades de investigação portuguesas onde há Antropologia. Este é, portanto, um momento de reconhecimento internacional, mas também um momento de união da Antropologia portuguesa que, creio, vale a pena ser continuado e aprofundado.

Porém, este bom momento que vivemos não está a ser acompanhado do reconhecimento institucional da disciplina. A adoção cega e a aplicação irrefletida de modelos de organização de dados, proposta por instâncias internacionais, tem vindo a invisibilizar a Antropologia como área científica nos dados e registos oficiais. Refiro-me ao uso do sistema FoS (baseado no modelo Frascati, da OCDE) que coloca a Antropologia como uma subárea da Sociologia. Os efeitos desta decisão política são múltiplos e têm sido profundamente prejudiciais em dimensões tão diferentes como candidaturas a projetos, concursos individuais para bolsas e contratos, identificação de áreas disciplinares de instituições, sistemas de CVs ou organização de dados estatísticos de teses e dissertações. Em todas estas dimensões, os antropólogos, e a sua produção, aparecem dentro da categoria sociologia. Com o passar do tempo o resultado destas medidas é a invisibilização da Antropologia nos dados estatísticos das instituições de gestão e financiamento da ciência em Portugal. Dou como exemplo o Registo Nacional de teses e dissertações onde a pesquisa de teses de doutoramento e mestrado em Antropologia tem como resultado ZERO. Não façam a leitura apressada: as teses estão todas lá e são encontráveis pelo seu titulo ou nome dos autores. A questão é bem mais grave e é política: a área científica Antropologia não é reconhecida plenamente para fins estatísticos no sistema cientifico nacional. Ela é sempre uma subárea da Sociologia. E isto é inaceitável do ponto de vista da autonomia cientifica de uma disciplina de reconhecido mérito e importância e, por outro lado, é incongruente com o momento de pujança da Antropologia em Portugal.

É, por isto, importante a participação de todos no Fórum Antropologia – em luta pela autonomia científica, que a APA organiza no próximo dia 9 de novembro, para discutir o presente e o futuro da Antropologia num tempo de sucessivos ataques institucionais à disciplina.

Antónia Pedroso de Lima
ISCTE-IUL e CRIA

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N.º 28 (outubro 2018)

Pertenço à primeira geração de antropólogos formados depois do restabelecimento da disciplina nas universidades a seguir à restauração da democracia. Independentemente da diferença entre “turmas”, foi entre os licenciados da Universidade Nova na viragem dos anos 70 para os anos 80 que essa universidade e, pouco depois, o ISCTE, recrutaram os quadros que viriam a estabilizar estes dois departamentos (a história da UC e do ISCSP são algo diferentes, bem como as de grupos de antropólogos noutras universidades fundadas em democracia, mas NOVA/FCSH e ISCTE-IUL constituem o núcleo duma história que assumo aqui como mais pessoal). O recrutamento de muitas pessoas da “minha geração” permitiu o crescimento de departamentos e cursos que começaram com quadros retornados do exterior ou dele vindos, e esse crescimento ainda continuaria até aproximadamente os anos 90 com o recrutamento de jovens saídos das licenciaturas onde a minha geração já lecionava. Em suma, o ciclo de reprodução durou o tempo que foi da “normalização” pós-revolucionária à adesão à EU e ao crescimento económico, (relativa) democratização do ensino superior e crescimento do seu sistema.

Pouca gente duvidará de que tudo mudou a partir daí. Correndo o risco de ser simplista, o sistema “congelou” a partir de então, por via de políticas de cariz restritivo e neoliberal, e isto apesar do significativo crescimento da atividade científica e do investimento nela, e apesar da crescente internacionalização. O resultado, à vista de todos, foi o envelhecimento atroz dos corpos docentes dos principais departamentos; a impossibilidade de acesso a carreiras docentes por parte das novas gerações; e a concomitante precarização dos vínculos de trabalho relacionados com bolsas e investigação. As consequências deste sistema, desta economia política da antropologia (e da universidade e ciência) deveriam ser abordadas não apenas no plano laboral e das vidas das pessoas – sem dúvida o plano mais importante – mas também no plano do conhecimento. Ou seja, como abordamos os mundos sociais e culturais que estudamos, com que instrumentos teóricos e metodológicos, e com que espírito de curiosidade, inovação e crítica, se estamos constrangidos pela entropia sistémica e pela formatação das agendas de pesquisa, com a sua divisão funcional e perversa entre corpos docentes de carreira mas “congelados” e envelhecidos, por um lado, e uma massa de investigadores precários e dependentes, por outro?

Miguel Vale de Almeida
ISCTE-IUL e CRIA

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N.º 27 (setembro 2018)

O elogio do saber e do ser antropológico

Setembro começou com uma triste notícia. O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ardeu. Uma tragédia que muito entristece os antropólogos portugueses. O Museu não era apenas um lugar de memória do Brasil; era e é muito mais. Uma casa do conhecimento, uma casa da antropologia, da investigação e do ensino. Estamos todos hoje mais pobres com a perda de um legado importante da história do Brasil, de Portugal, da América e do Mundo. A antropologia, em particular, está hoje amputada de uma parte do seu corpus de conhecimento e saber.

Entretanto, a antropologia volta a sofrer um ‘novo ataque institucional’ com o CiênciaVitae, um sistema nacional de gestão curricular que a FCT e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior pretendem implementar até ao final deste ano. Uma nova plataforma que substituirá o FCT-SIG e o De Góis, visando, a ‘simplificação e flexibilização’ da informação mas que, todavia, enferma de um já recorrente problema. Na sua versão teste os antropólogos aparecem classificados como sociólogos. Uma forma de marginalização que, aparentemente e para aqueles que a promovem, é coisa de somenos. Não é! São processos que, paulatinamente, vão sedimentando realidade, e, por outro, ajudam a ‘matar’ a disciplina. É intolerável porque muitos de nós há muito que vimos a alertar a FCT sobre estas sucessivas formas de exclusão e marginalização da antropologia. Quem decide nos aparatos institucionais faz ‘ouvidos moucos’ e refugia-se sempre no argumento burocrático-informático. Louve-se a solidariedade dos nossos colegas da sociologia; em diferentes momentos e de diferentes formas já também afirmaram o direito ao reconhecimento paritário da antropologia. Antropologia não é Sociologia. Partilhamos terrenos, conceitos, sujeitos de estudo, interesses, quadros teóricos, etc. mas somos diferentes nos modos como conhecemos. Há uma epistemologia, uma ética e uma política do conhecimento que nos são muito próprias e merecedoras do respeito institucional.

Neste mês, quando muitos jovens iniciarão nas universidades o seu percurso pelos caminhos da antropologia, investindo tempo e recursos nesta formação, é justo que possamos afirmar que o aprender antropologia e o ser antropólogo ou antropóloga é um direito que se funda numa história construída ao longo do tempo com base numa forma de conhecer e pensar o mundo que jamais poderá ser dispensada. É o justo reconhecer da antropologia, afirmando, sem concessões, que sem antropologia o mundo será sempre um lugar de vida mais pobre.

 
Humberto Martins
Vice-presidente da APA

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N.º 26 (agosto 2018)

Antropologia para quem?

Num momento em que se volta a discutir de forma mais acalorada o acesso livre ou aberto às revistas e jornais periódicos, ao conhecimento científico e à produção de antropologia no mundo, seria bom questionar as lógicas econométricas e produtivistas que marcam a produção científica nos tempos que correm. A economia do conhecimento assenta hoje em dia (apesar de alternativas também elas cada vez mais consistentes), numa lógica industrial – produzir muito e mais. Não por acaso, verifica-se a emergência de um mercado apetecível no qual a circulação da informação e o acesso aos recursos estão baseados na desigualdade de possibilidades dos vários interessados. Há áreas de saber nas quais a publicação de um artigo já custa ‘grandes fortunas’ aos autores. Ou sejam, os investigadores pagam bem para ver publicado o seu trabalho. Outras perversidades mancham o mercado editorial, a produção e a divulgação do conhecimento científico, algumas pacificamente assistidas ou reforçadas por todos nós.

No entanto, sabemos, até por experiência, que o muito não é necessariamente o bom. Que mais não é nunca melhor e que inclusivamente as agências estatais de financiamento da ciência começam a mudar o seu entendimento quando se trata de avaliar a produção de resultados dos centros de investigação. Qualidade e não quantidade.

Por isso, a pergunta é pertinente e outras lhe estão necessariamente associadas. Antropologia para quem? Para alguns? Para todas? Para comunidades de especialistas? Para quem pode pagar? Para as academias? Para círculos fechados? Para quem quer ganhar dinheiro? E quanto mais melhor? Sempre a sair da ‘fábrica’?

Um acesso universalizado em todo o lado do mundo ao conhecimento produzido pelos antropólogos constituirá sempre um benefício não só para os especialistas mas para todos, os humanos e, cada vez mais, os não-humanos. A criação desta newsletter teve, justamente, como uma das suas intenções originais a de divulgar informação de uma forma regular e sistematizada de modo a garantir um acesso mais generalizado ao que é e vem sendo feito na antropologia em Portugal e no Mundo.
 
Humberto Martins
Vice-presidente da APA

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N.º 25 (julho 2018)

2019
Antropologia, ainda e sempre

A APA mudou de imagem. Não foi fácil abdicar de uma imagem que marcou e tem marcado esta associação ao longo de muitos anos. Nem tampouco foi e é consensual a nova imagem. Ainda bem! Mal de nós, em particular na antropologia, que admitamos alguma vez unanimidades e consensos forçados. Viva a diversidade de gostos, estilos, credos, valores, modos de ver, olhar, sentir. A mudança de imagem ‘gráfica’ não pretende romper com o que quer que seja. O logo original da APA fica guardado na memória e no coração dos antropólogos e antropólogas que têm feito a antropologia portuguesa. Um obrigado sentido a quem, generosamente e sem nada em troca, tanto deu e tem dado a esta associação. Nunca uma organização deixará de ser, também e sempre, o legado de contributos específicos de muitas pessoas. E, por isso, ao autor do logo original, Miguel Vale de Almeida, a APA deixa por este meio um justo agradecimento pela criação dessa imagem que sempre guardamos e guardaremos com carinho.
 
A APA, que se prepara para celebrar 30 anos, coincidindo a data com a realização do seu sétimo congresso em Junho de 2019, tem um presente e um futuro cheio de desafios. Continuará a ser um caminho difícil de ser trilhado, feito de muitos obstáculos – ideológicos, políticos, económicos, epistemológicos, disciplinares – como, aliás, temos vindo a referir nestes editoriais. Falta de reconhecimento, falta de espaço de afirmação pública, mesmo no quadro da ciência em Portugal, falta de lugares de emprego para antropólogos fora das academias, espaços de interlocução limitados… enfim, realidades que só a salubridade mental de quem mantém, por vício e profissão, um ser hipercrítico ajuda não só a ultrapassar como a conceptualizar como possíveis entre muitas mais.
 
E, por isso, o futuro constrói-se construindo. É, neste sentido, que a APA mantém e vai criando novas iniciativas sempre tendo em vista a promoção da antropologia e do modo de fazer antropologia. São exemplo, os prémios para textos e projectos científicos destinados aos jovens antropólogos, este ano criando espaço de reconhecimento maior para a antropologia biológica/forense, bem como o prémio de projecto de investigação aplicada. Entretanto, quatro bolsas de mestrado vão ser atribuídas anualmente, tentando com isto assegurar que os alunos dos vários cursos de mestrado lecionados em Portugal possam ter um pouco mais de meios para fazer trabalho de campo em condições. Os fóruns temáticos e a amplificação da rede de parcerias são igualmente iniciativas que muito valorizamos e que vamos manter como estruturante da acção desta associação.
 
E o futuro está já aí, 2019, que para a APA será uma data importante. De celebração e reflexão. Ao propormos 2019 como título do nosso congresso, resistindo à comum tentação de criar lemas, palavras-chave, categorias ou classificações, a APA afirma que é o Mundo e toda a vida nele (e fora dele) que interessa à antropologia. Sem concessões a inscrições e dependências categoriais, 2019 é um tempo de vida, no qual, assim se espera, nos encontraremos para dizer quem somos e o que conhecemos naquele momento, fazendo antropologia ainda e sempre.
 
Humberto Martins
Vice-presidente da APA

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N.º 24 (junho 2018)

A universidade-empresa

É hoje consensual que sob a influência do globalizado sistema neoliberal as universidades têm sido progressivamente transformadas em “academia-empresa”, empurrando os corpos docentes para uma enorme pluralidade de tarefas –  desde excesso de docência , passando pela pressão para a investigação e publicação à gestão administrativa. Existem causas por detrás destes processos, nomeadamente a incorporação crescente do número de alunos que vem ocorrendo nas últimas décadas; o crescimento dos cursos de pós-graduação e doutoramentos; a redução dos financiamentos estatais, com a concomitante necessidade de redução de pessoal, docente e não-docente; e uma enorme competitividade entre as universidades para atraírem mais alunos e mais financiamentos, comprovado na grande diversidade de rankings existentes. Destaca-se, neste âmbito, a importância que os rankings baseados na “produtividade das publicações” assumem na hierarquização das universidades, à escala nacional e internacional, e a consequente pressão sobre a docentes e investigadores para aumentarem constantemente os níveis de produtividade. As canadianas Maggie Berg e Barbara K. Seeber identificam na perfeição este processo, no seu livro The Slow Professor: Challenging the Culture of Speed in the Academy (2016, University of Toronto Press), denunciando o aumento de stress e de desmotivação de professores e investigadores, e simultaneamente o aumento de “estratégias de produtividade” sub-reptícias: plágios, repetição de artigos, em suma, diminuição da qualidade das publicações.

Neste retrato, ainda que apurado e lapidar – o valor heurístico do livro fundamenta-se sobretudo no diagnóstico e não tanto na proposta terapêutica -, não entram as autoras em linha de conta com os diferentes ramos científicos, nomeadamente com a distinção entre as ciências exatas e as sociais e humanísticas, e de como estas últimas se encontram em posição de desvantagem e subvalorização, quer na “velocidade” de publicação quer na priorização dos financiamentos. A Antropologia é, no interior desta última categoria, e no caso português, uma das ciências mais subvalorizadas nas últimas décadas. Pelo desprezo a que está submetida no ensino pré-universitário; nas próprias universidades; e no subfinanciamento estatal. Prova disso é a sua integração, pela FCT e via Manual Frascati, como subcategoria da Sociologia, e o decrescente número de projectos financiados, de concurso em concurso, conduzindo a um progressivo asfixiar da disciplina. A APA, bem como os centros de investigação, tem desenvolvido esforços no sentido de denunciar e melhorar a situação do ensino e investigação em Antropologia em Portugal, mas não chega. Ao contrário da estratégia que as autoras do livro supracitado defendem, não basta a acção individual e o “sorriso” dos antropólogos, é necessário a participação de todos nós.

Fernando Florêncio
Membro da Direção da APA

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N.º 23 (maio 2018)

No início dos anos 1990 não sabemos quantas turmas de Antropologia havia no secundário em Portugal. Mas sabemos que se experimentava então um conjunto de disciplinas opcionais no secundário. Nessa altura, no 10º e no 11º, os alunos escolhiam duas disciplinas anuais opcionais, onde a Antropologia constava de algumas escolas. Nesse ano estava no 10º e conheci a Antropologia através da professora Paula Godinho, que então lecionava em escolas do Concelho de Sintra. Uma das alternativas de avaliação passava pela realização de um exercício etnográfico. Fui para Barrancos durante uns dias com um colega. Fizemos entrevistas gravadas em vídeo e tirámos muitas notas. Esquecemo-nos de colocar a bibliografia, mas lemos a tese de licenciatura de Cristiana Bastos sobre Barrancos, posteriormente referida num artigo para falar da então crescente Antropologia enquanto ciência (Bastos 2014).

Hoje continuamos sem saber ao certo quantas turmas há de Antropologia no secundário em Portugal e quantas turmas de outras disciplinas são lecionadas por professores formados em Antropologia. A APA tomou este dossiê, “Antropologia no Secundário”, como aposta recente, em duas medidas. Uma delas já foi referida no editorial de Março de 2018, que passou já pela iniciativa de levar a Antropologia a uma escola secundária. Neste momento, estamos a desafiar os sócios a dinamizar iniciativas do Ciência Viva de forma a que o movimento entre escolas e universidades seja mais constante.

Um segundo aspeto passa pela inclusão da Antropologia no secundário com um programa adaptado às chamadas “Aprendizagens Essenciais” que são “documentos de orientação curricular base na planificação, realização e avaliação do ensino e da aprendizagem, conducentes ao desenvolvimento das competências inscritas no Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória”. Para tal, a APA conta com a ajuda da sócia Lurdes Pequito, na elaboração do documento das “Aprendizagens Essenciais” na Antropologia, que irá em breve ser disponibilizado.

Para que serve a Antropologia no secundário? Além da divulgação entre jovens que poderão incluir mais refletidamente a Antropologia no seu leque de escolhas, divulgar a Antropologia em níveis de ensino mais precoces visa também a propagação de um conjunto de perspetivas sobre as sociedades contemporâneas. No secundário, os alunos podem esquecer-se de colocar a bibliografia num trabalho, mas não esquecem as disciplinas que os fazem ver o mundo doutras formas. E a antropologia no secundário pode fazer mais por isso.

Rita Cachado
Membro da Direção da APA

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N.º 22 (abril 2018)

Haja esperança nos jovens antropólogos portugueses. Organizaram-se finalmente os nossos estudantes de antropologia e criaram recentemente uma Associação Nacional, que os defenda e represente condignamente, já tendo um “1º Encontro Nacional de Estudantes de Antropologia” programado para ocorrer em Abril corrente, em Coimbra.

Como entidade empenhada na promoção da formação e investigação na antropologia em Portugal, escudando os seus profissionais, a APA desde logo, deu o seu apoio e congratula os jovens estudantes que se mobilizaram para dar este passo decisivo. Talvez pequeno para a humanidade, mas grande para a antropologia em Portugal. Porque significa empenho na continuidade da nossa área, sobretudo, porque estudos recentes indiciam algum pessimismo na nossa comunidade quanto ao futuro (ver o relatório do “Perfil d@s Antropólog@s em Portugal”), a nível nomeadamente da utilidade da antropologia para a sociedade. Mas são os jovens formandos, os jovens investigadores, os nossos jovens profissionais, precisamente, que representam esse futuro e assim rebatem estas preocupações.

“Os antropólogos mais jovens acham que a antropologia é demasiado diversificada. O número de coisas que são feitas sob o nome da antropologia é simplesmente infinito; podemos fazer qualquer coisa ou tudo e chamar-lhe antropologia” diz Geertz. E Feuerbach também avisou que a antropologia veio para destronar a teologia, na Era Moderna. Por isso, a responsabilidade é grande! Criem secções, centros de carreiras, linhas de financiamentos, guias, atlas, spin-offs, balcões de consultoria, grupos de trabalho.

O desejo da APA é que façam antropologia com impacto: que façam trabalho de campo que marque os lugares e as pessoas; que escrevam para que saiam best-sellers; que tenham voz nas salas de aula de outros ramos científicos que tanto precisam de saber de antropologia; que falem alto nos meios de comunicação; que sejam ouvidos junto dos decisores políticos; que investiguem o corpo humano e a cultura que muda ou morre todos os dias. Que não se cansem e leiam, saibam ouvir, e escrevam, e questionem, e gritem, até que a voz vos doa. “O limite são as estrelas” e os prémios Nobel são para alguém os ganhar. Aos antropólogos de cabelos brancos faz falta o vosso alento e dinamismo, tantas vezes. A APA garantirá sempre a preocupação pela continuidade da ANEANT, porque não esquecemos que a vossa é a nossa continuidade também. Por favor, brilhem, sem pré-juízo de ninguém, se possível com juízo!

Marina Pignatelli
Membro da Direção da APA

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N.º 21 (março 2018)

A Antropologia no ensino secundário

No passado dia 20 de Fevereiro a APA organizou, em colaboração com a Rede de Doutorandxs do ISCTE-IUL, uma mostra de várias pesquisas de doutoramento em curso, protagonizada por alunos de doutoramento em Antropologia nesta Universidade e membros da Rede de Doutorandxs. Esta mostra teve lugar na Escola Secundária Ibn Mucana em Alcabideche, e contou com o apoio de uma professora deste estabelecimento de ensino.

Esta iniciativa, que esperamos que se repita, teve por mote uma constatação e a tentativa de a inverter: a inexistência de oferta lectiva em antropologia na grande maioria das escolas secundárias.

Os profissionais da Antropologia em Portugal – docentes universitários, investigadores e pós-doutorandos – vêm há muito sentindo os efeitos negativos da ausência de leccionação desta área científica no ensino secundário, quer para o futuro profissional dos licenciados, quer para a sociedade em geral, onde se verificam fenómenos preocupantes de intolerância face à diferença e às desigualdades sociais e culturais.

Acreditamos que a Antropologia é hoje fundamental para compreender melhor as diversidades, diferenças e desigualdades dentro de qualquer sociedade e entre sociedades, em múltiplos planos, das migrações às identidades minoritárias, dos padrões de consumo às diferentes éticas e estéticas, das mudanças de valores e comportamentos à sua resistência ou reinvenção, entre muitos outros aspectos que fazem da cultura humana e das culturas humanas uma realidade em constante transformação.

É para um melhor entendimento deste mundo, e uma mais justa actuação no mesmo, que julgamos ser imprescindível que os mais jovens tenham a oportunidade de serem expostos à mais científica das humanidades e mais humanista das ciências. Em nome da construção de um civismo tolerante, inclusivo e crítico.

E lançamos o desafio: a criação de uma rede de antropólogos docentes do secundário que incentive e possibilite a mobilização das/os formados em Antropologia que leccionam por este país fora.

Joana Lucas e Miguel Vale de Almeida

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N.º 20 (fevereiro 2018)

Celebra-se a década dos afrodescendentes e fica mais óbvio que o eterno banho-maria lusotropical em que supostamente vivemos não nos serve. A repetição ad nauseam do mantra sobre o não racismo dos portugueses, ou sobre o seu mais benévolo passado colonial, ou sobre a sua inerente disposição para a convivialidade, para muita coisa pode servir, entre elas a boa consciência e autocomplacência de quem fala, mas certamente não nos serve para melhor conhecermos a realidade – e menos ainda para nela intervir. Precisamos de mais e melhor, porque a realidade não cede ao repetir do mantra e a discriminação prossegue, o racismo existe, o racismo mata. Os afrodescendentes que o digam. Por onde começar? Que mapa do temos já, de que indicadores precisamos, como chegar-lhes sem perder o caminho? 

Não há receitas para resolver os paradoxos, contradições e tensões que qualquer abordagem ao racismo gera entre nós — o paradoxo de combater o racismo fazendo emergir categorias racializadas onde elas supostamente não existem, mesmo que operem discriminação e segregação nos espaços, nos empregos, nas prisões, nos índices de saúde, de renda, de vulnerabilidade geral; as contradições entre o verbalizado,  idealizado, feito doutrina, e o praticado, com ou sem reconhecimento; a tensão entre metas igualitárias e caminhos de separação.

Já vai longe e, para alguns, caduca de ineficaz, a proposta optimista que cresceu na sequência dos horrores que levaram à segunda guerra mundial —  a promessa de levar às ultimas consequências a inexistência de raças, a cartilha da UNESCO que inspirou tantos de nós. Não é de tanto repetirmos o que sabemos, o que a ciência demonstrou e os mais recentes trabalhos de genética reiteram – que na não existem raças na natureza, elas são criadas pelos processos sociais e cognitivos —  que eliminamos a proliferação de racializações, e com elas o agravamento das desigualdades. Bem gostaríamos que o nosso papel pedagógico fosse assim transformador, mas não somos ingénuos. É preciso muito mais – e talvez começar por usar os instrumentos de conhecimento de que dispomos: saber quantos somos, onde estamos, o que isso nos indica sobre as desigualdades estruturais; e, com ambição, de fazer recomendações – e, com muita ambição, vê-las postas em prática.  Mas como? Como começar este caminho difícil sem o deitar a perder? Como responder aos que, sabendo-nos de antropologia, nos confrontam com estes paradoxos, contradições, tensões?

Para ajudar ao debate, a APA organiza um fórum em abril em que alguns afro-descendentes partilharão os seus pontos de vista e avaliarão o estado da questão: o que fazer nos próximos censos? Que vantagens e problemas traz a introdução de categorias de nomenclatura racializada? Como escolher as categorias? Quem será envolvido? Que caminhos levam as categorias entre a sua enunciação pelos arquitectos do censo e o momento da recolha de dados?  Apelamos aos sócios para uma participação em massa.

Cristiana Bastos
Membro da direção da APA

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N.º 19 (janeiro 2018)

O ensino da Antropologia em Coimbra e a atual situação da Antropologia Social

O ensino da Antropologia iniciou-se na Universidade de Coimbra em 1885, com a disciplina de “Anthropologia, Paleontologia Humana e Archeologia Préhistórica”, regida por Bernardino Machado. Inserido na Faculdade de Philosofia e Sciências histórico-naturais, o ensino da Antropologia consubstanciava deste modo um projeto de base naturalista e estava diretamente relacionado com o Museu de História Natural, que viria a fundar em 1887 uma secção dedicada à Antropologia. Com um pendor predominante da Antropologia Física, com especial destaque nesta fase para os estudos de osteologia, não deixava no entanto de fazer algumas incursões na Etnografia e na Ecologia Humana.
A partir de 1907, sob a influência de Eusébio Tamagnini, o ensino da Antropologia na Universidade de Coimbra deriva para três vertentes diferenciadas: a denominada “Antropologia Zoológica”, muito influenciada pela Primatologia; a “Antropologia Etnológica”, virada essencialmente para os estudos das raças, e nos quais a genética vai exercendo um papel determinante; e a Antropologia Criminal. De salientar que a vertente da Antropologia Etnológica, e mormente a componente etnográfica, quer no que respeita ao seu ensino e investigação, ocupou sempre um lugar residual, funcionando esta disciplina sobretudo na Faculdade de Letras. Esta tendência do ensino da Etnografia e da Antropologia Social e Cultural na Faculdade de Letras perdurou até ao inicio do novo milénio, com disciplinas de Etnografias Africanas (antes de 1974) e posteriormente com a introdução das disciplinas de Antropologia Filosófica, Antropologia do Teatro e Antropologia das Religiões, lecionadas por docentes que não eram antropólogos. Entretanto, na Faculdade de Ciências e Tecnologia, a partir de 1975 surgiram algumas disciplinas optativas no curso de Biologia, de cariz sócio-cultural, tais como Antropologia Cultural e Introdução às Ciências Sociais.
Em 1992, impulsionada por Manuel Laranjeira Rodrigues de Areia, instituiu-se a licenciatura em Antropologia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia. A nova licenciatura correspondia de certo modo a um projeto de diferenciação em relação às outras licenciaturas já existentes em Portugal (ISCSP, ISCTE, Universidade Nova de Lisboa e Universidade do Minho), nas quais predominava o ensino da Antropologia Social e Cultural. Pretendia-se assim equilibrar o ensino das duas vertentes, Biológica e Social/Cultural, equidade que se expressava quer no plano curricular do curso, quer no conjunto de docentes contratados. Em 2002 o curso sofreu nova remodelação, com a introdução de um major genérico e englobante das duas vertentes, nos dois primeiros anos, e de dois minors de especialização em Antropologia Social e Cultural e em Antropologia Biológica, nos dois últimos anos. Em 2007 com o processo Bolonha o curso sofreu nova remodelação, com passagem da licenciatura para três únicos anos, e a criação de vários mestrados, integrados e de especialização, em Antropologia Social e Cultural, Antropologia Médica e em Evolução Humana, e posteriormente com a criação do Doutoramento em Antropologia, com três ramos de especialização em Antropologia Forense, Antropologia Biológica e Antropologia Social e Cultural.
Ironicamente, a partir desta data a equidade do corpo docente foi desfeita. A partir de um corpo docente, da área da Antropologia Social e Cultural, que em 2005 perfazia oito elementos com contratos a tempo integral, por diferentes motivos, esse número foi paulatinamente decrescendo até à situação atual de três docentes com contrato a tempo integral e dois em regime de convidados. Exigindo destes cinco docentes a lecionação de 50% da licenciatura em Antropologia, 100% do Mestrado em Antropologia Social e Cultural, cerca de 50% do Mestrado em Antropologia Médica, e um ramo do doutoramento. Acrescente-se a restante atividade relacionada com orientações, cargos de gestão científica e, investigação, esta última obviamente desfavorecida pelas atuais condições, que a Universidade de Coimbra bem conhece desde o início, mas que manifestamente parece incapaz ou desinteressada na solução.

Fernando Florêncio
Membro da direção da APA

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N.º 18 (dezembro 2017)

Chegámos a mais um momento de avaliações de FCT. Mais uma vez a Antropologia não surge como área autónoma, nem lhe é dado o devido destaque no seio das Ciências Sociais. Apesar das diligências que têm sido feitas ao longo de anos por vários representantes da Antropologia em Portugal para que a FCT se distancie da classificação FOS do Manual Frascati — que não confere autonomia científica à Antropologia – esta classificação voltou a ser usada. Em janeiro de 2016, em carta subscrita por vários representantes da Antropologia em Portugal, foram enviados à FCT vários argumentos e solicitações, sob a forma de contributo para o “Grupo de Reflexão sobre a Avaliação de Ciência e Tecnologia pela FCT”. O relatório final produzido por este grupo de trabalho apresenta uma proposta de reformulação, com uma grelha onde a Antropologia (Física/Biológica e Social/Cultural) aparece como subárea autónoma das Ciências Sociais.

Perante a situação paradoxal de, não atendendo às recomendações, a FCT continuar a insistir na redutora classificação FOS, a 22 de novembro a APA e o CRIA dirigiram ao Presidente do Conselho Directivo da FCT uma carta conjunta, com um pedido de alteração desta classificação, que, para além de prejudicar a antropologia e os antropólogos, retira visibilidade à disciplina, e é geradora de anomalias, já verificadas em anos anteriores.

A direcção da Associação Portuguesa de Sociologia, num acto de solidariedade com a APA, tornou também público no seu site um comunicado onde defende que a Antropologia deve ser dignificada, constituindo-se como domínio autónomo nos processos de avaliação da FCT.

Apelamos à solidariedade de todos os antropólogos e cientistas sociais, bem como da comunidade científica em geral, para insistirmos na correcção desta anomalia e na dignificação e valorização da Antropologia.

Clara Saraiva
Presidente da direção APA

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N.º 17 (novembro 2017)

Antropologia e divulgação de Ciência

As iniciativas de divulgação da Ciência em Portugal ocorrem de forma estruturada desde o início dos anos 2000. No Portal Ciência Viva é evidente o destaque para as ciências ditas duras, nucleares, ou outras formas de descrever todas as outras ciências que não as Sociais e Humanas. A Antropologia portuguesa tem hoje em dia um papel duplo que pode desempenhar, se quiser, para colaborar mais ativamente na divulgação da ciência.
Os principais destinatários deste tipo de divulgação são os estudantes que ainda não decidiram que curso seguir. Há atividades na Semana Ciência & Tecnologia, estágios de Verão, homenagens e outras possibilidades. Recentemente realizou-se a Noite Europeia dos Investigadores, onde os investigadores de mais de uma centena de centros de investigação divulgaram os seus trabalhos e fizeram demonstrações in loco.
Se este tipo de eventos faz mais sentido à partida para experiências na área da biologia, medicina ou astrofísica, não é de excluir que sejam promovidos eventos com experiências relacionadas não só com a osteologia, paleoantropologia em geral, e evolução humana em particular, como ainda desafiar alguns interlocutores de terreno para partilhar os seus saberes técnicos, sistematicamente coligidos pelos antropólogos e muitas vezes publicados para dentro da academia. Porque não pôr mais em prática a “devolução às populações”? Não só trazê-las para os meios académicos como pensar as populações de forma alargada e promover os conhecimentos para mais pessoas além dos nossos colegas?
Outros eventos recentes deste fim de verão alargado parecem sinais claros de que a Antropologia quer comunicar mais, desenvolvendo debates atuais no Seminário Refugiados e Direitos Humanos;  propiciando encontros entre diferentes gerações de investigadores no 1º encontro de doutorandxs de Antropologia do ISCTE-IUL, e finalmente com antropólogos que não seguiram a carreira universitária, que são aliás a maioria, no Forum da APA Os trabalhos dos Antropólogos fora da Academia.
Num tempo em que investigadores e professores se sentem consumidos pelas necessidades de publicação para pares e em que as exigências para as ciências sociais e humanas parecem ser copiadas em geral das outras ciências, há atividades que são desenvolvidas sobretudo pelas ciências não sociais e humanas que importa reproduzir, adaptar, alargar.

Rita Cachado
Membro da direção da APA

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N.º 16 (outubro 2017)

Perfil do Antropólogo em Portugal – Estudo Longitudinal (2017-2027)

Prometemos e vamos cumprir. A nossa associação vai continuar a estudar a situação dos antropólogos portugueses. Esta era, aliás, já uma intenção inicial do projeto do “Perfil do Antropólogo em Portugal (2014-2016)”, o PAP – a de dar seguimento e aprofundar questões que nos preocupam a todos e que vieram bem expressas e reforçadas nos resultados do estudo desenvolvido.

Um dos resultados do estudo do PAP da APA (2014-2016) foi um significativo número de participantes ter apontado preocupações no campo da antropologia portuguesa relativamente à inserção no mercado laboral fora da academia.

Era, desde logo, intenção deste estudo continuar a acompanhar a situação dos graduados em antropologia (independentemente do grau) ao longo dos anos, desde a sua formação até à sua integração no mundo profissional, na sociedade portuguesa.

O objetivo é agora precisamente aprofundar sobre as boas práticas e as dificuldades existentes no universo da antropologia nacional, em termos da adequação da formação recebida, de expetativas e receios, dos perfis, preferências de carreira e motivações dos nossos estudantes, de modo a que possam ser delineadas e propostas soluções construtivas e com impacto real nas suas vidas.

Faz falta saber por exemplo, como é percecionada a formação em antropologia pelos alunos dos vários ciclos, que expetativas têm quanto ao futuro próximo e distante que os aguarda, que escolhas fazem quanto às especializações com vista ao mercado de trabalho e que barreiras contam encontrar pelo caminho.

Foi por isso que, de novo, a APA resolveu lançar um novo questionário, agora só aos que estão a iniciar uma graduação na antropologia nas nossas universidades, questionário que será repetido, com os devidos ajustes, quando terminarem essa formação e também daqui a 10 anos, quando, assim o esperamos, estejam todos a trabalhar e a cimentar uma carreira.

Contamos poder divulgar alguns dados do primeiro questionário a ser lançado brevemente, no próximo Congresso da APA, a ter lugar em 2019.

A APA agradece desde já aos departamentos e docentes do 1º ano dos três ciclos de estudos de Antropologia, UCoimbra, ULisboa (ISCSP e ICS), FCSH-UNL e ISCTE-IUL, que agilizaram a apresentação que está já a ser feita às várias turmas, no sentido de esclarecer e apelar à participação dos alunos neste novo PAP – Estudo Longitudinal (2017-2027), que afinal, lhes é dedicado.

Marina Pignatelli
Membro da direção da APA

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N.º 15 (setembro 2017)

[sem editorial]

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N.º 14 (agosto 2017)

Deambulações Oblíquas

No rescaldo de alguns acontecimentos de forte impacte público e mediático em Portugal, nomeadamente os trágicos incêndios florestais, o curto editorial desta Newsletter estival toma por imperativo a afirmação de uma antropologia da urgência sobre o que nos afecta como partes integrantes do planeta Terra. Alguns antropólogos que estudam as questões ambientais vêm alertando para o facto das ‘catástrofes naturais’ terem que ser percebidas, cada vez mais, pela sua regularidade. Como viver com? Esta será a pergunta à qual sociedades, governos, grupos e indivíduos terão que criativamente responder e não tanto procurar concebê-las pela sua excepcionalidade. A (in)sustentabilidade criada pelos humanos na sua ânsia colonizadora de tudo o resto afecta efectivamente muitos milhões de indivíduos (humanos e outros). Também no estudo destes assuntos e problemas que afectam o ambiente, definível como tudo o que existe para além do Eu, a antropologia pode ter um papel crítico; sobretudo se se optar por abordagens que fogem ao óbvio e ao imediatismo com o qual somos brindados diariamente por outros produtores de conhecimento. Haja tempo para a urgência.

Boas férias.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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N.º 13 (julho 2017)

Como nos podem conhecer? (ou a visibilidade dos antropólogos)

O editorial do mês passado mostra bem quão instável e precário é o lugar dos cientistas, em geral, e dos antropólogos, em particular. O conhecimento continua a ‘meter medo’ e o trabalho de quem põe em causa formas hegemónicas de conceber o mundo, e admite outros e outras possibilidades de nele viver, é visto como ameaçador. Onde e quando se lia e ouvia isto? Há uns bons séculos, seguramente. As coisas repetem-se, no entanto, com a passividade de muitos e muitas que preferem olhar para o lado. Não tenhamos medo, apetece dizer, apropriando-nos criativamente de uma máxima utilizada noutros tempos. “Antropólogos de todo o mundo, uni-vos!” Para que não se ponha em causa quem conhece e reconhece a diversidade do mundo, cultural, social, religiosa, ideológica, identitária, biológica. Finalmente, para que não se as destruam.

Se é certo que os antropólogos em determinados contextos podem ser vistos como ameaçadores, o que já presume a sua presença, o seu trabalho e o impacte da sua acção, a verdade é que a invisibilidade dos antropólogos é ainda uma marca de muitas sociedades. É o caso de Portugal, apesar dos esforços diários de todos e todas em diferentes situações e encontros – sejam em projectos, eventos de divulgação científica, ou ainda na literatura que se vai produzindo (com maior ou menor contorno académico). A invisibilidade é também produzida, por melhor e mais elaborado argumento burocrático que se possa admitir. Em alguns casos, inscrita numa agenda de hierarquização de saberes através da qual alguns são depreciados ou marginalizados. Estas classificações ajudam a produzir uma leitura sobre a realidade, definem o modo como as profissões e os saberes ganham visibilidade.

Esta é também uma tarefa e uma responsabilidade da APA – assegurar formas de visibilizar a antropologia, o trabalho e as competências dos antropólogos. Um processo longo e para o qual ainda há muito a fazer. É aqui que inscrevemos uma iniciativa recente da nossa associação; o da criação de dois prémios anuais APA; um para melhor texto científico, atribuível a doutorandos e recém-doutorados, e um outro para melhor projecto de investigação aplicada. São medidas, a par da organização de uma conferência anual, que pretendem valorizar o trabalho dos antropólogos e antropólogas ao mesmo tempo que, expectavelmente, nos tornarão um pouco mais (re)conhecidos em Portugal e no Mundo.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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N.º 12 (junho 2017)

A antropologia sob ataque

Num momento em que vivemos em Portugal um sentimento de recuperação de políticas que colocam a ciência num plano nobre e em que acreditamos conseguir que a antropologia assim sobreviva, tornamo-nos num caso singular, especial e até exemplar num mundo em que em muitos outros países se assiste a um verdadeiro retrocesso civilizacional e a ataques inverosímeis não apenas à prática antropológica, mas ao mundo plural que a torna viável. Assim vejo o que se está a passar atualmente com a aprovação a 30 de Maio de 2017 do Relatório que constitui como arguidos vinte e um antropólogos no exercício da sua prática, entre os quais infelizmente me incluo. 
A Direção da APA convidou-me a enunciar o problema. Nestas breves linhas acentuo três pontos. Primeiro, como esta ofensiva se traduz no documento Relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O documento parece um texto produzido na década de 1960, fruto de um fulgor desenvolvimentista, ou de uma opressão política, e inspirado na década de 1940-1950 quando os princípios racistas e totalitários pareciam assolar grande parte dos países na europa e a antropologia se via impedida de emergir em tantos países como foi o caso de Portugal.
O relatório pode e deve ser consultado e lido (bastam 5 páginas das 3800 para qualquer antropólogo entender o teor do texto em causa) e está disponível no site da Câmara de Deputados do Brasil. Apesar de todos os abaixo-assinados de muitas associações de antropologia a nível internacional quando foi revelado a público no início de Maio, os mesmos 21 antropólogos são considerados arguidos por uma razão principal que a ABA tão bem formula no seu texto de repúdio a este relatório: os antropólogos estão a ser acusados de terem realizado as “funções previstas na Constituição e nas leis em vigência.” (cf. http://www.portal.abant.org.br).
O relatório é assinado e foi portanto resultado de uma investigação sob responsabilidade do Presidente da chamada “bancada ruralista”, isto é, um conjunto de políticos que têm como convicção e prática civilizacional a proteção de interesses privados pela terra e se indignam explicita e repetidamente ao longo do texto do relatório por o Brasil ter as leis que tem!! A legislação internacional adotada até tardiamente pelo Brasil como por exemplo o direito à autoderterminação prevista na Lei 169 da OIT é considerada um “absurdo”. O ataque a um total de 120 pessoas é um ataque a quem cumpre leis que implicam sociedades plurais, a liberdade de conhecimento e o conhecimento científico como forma de reflexão a partir da realidade empírica.
O relatório merece ser lido para que se tome consciência do nível de ofensiva de que a antropologia está a ser alvo. E não vejo como dizer que é a antropologia brasileira.  A antropologia enquanto forma de conhecimento científico presume um mundo plural. Ela não se sustenta como nós bem sabemos em regimes socio-políticos que não admitam essa pluralidade.
Fica este breve aviso à navegação: que este não é um problema “deles” brasileiros, não só porque esse conceito não existe desde que a antropologia como as restantes ciências fazem parte e sustentam a sua cientificidade numa rede global, como por ser um ataque efetivo a uma forma de conhecimento. As acusações fundamentam-se numa estratégia sistémica de desconsiderar a importância de um Estado de direito e de quem contribui para as cumprir, da pluralidade como um princípio social e da ciência como uma forma válida e com critérios próprios de validação, como sejam atender a formas de vida cuja descrição é empiricamente sustentada e que não pode contradizer-se sob pena da falência do próprio cientista/antropólogo. As acusações aos vinte e um antropólogos sustentam-se então no fato de eles terem posto em prática legislação consagrada na constituição e em supostas contradições entre o que teriam escrito academicamente e o que teriam escrito  nos respetivos relatórios de demarcação de terra. Uso o condicional propositadamente. A comparação que já começámos a fazer entre os antropólogos envolvidos no processo sobre as acusações feitas a cada um dos antropólogos mostra que, como acontece no meu caso, todas as citações ao  trabalho dos antropólogos são feitas recortando frases fora de contexto e mais sistematicamente ainda cortando partes das citações para afirmar termos dito o contrário do que efetivamente dizemos no texto em causa. Não parece presumir-se portanto que a antropologia tenha um cânone que como o de qualquer outra ciência passa pelo crivo da vigilância entre pares e da necessidade de comprovação empírica. Se os vinte e um antropólogos constituídos como arguidos tivessem efetivamente cometido os crimes de que estão a ser acusados já não seriam antropólogos no sentido em que os seus pares já os teriam retirado da comunidade académica.
É a recusa da existência deste mundo da produção científica da antropologia e da pluralidade que a viabiliza que faz deste um dos ataques mais sérios à antropologia. Aqui fica uma primeira impressão de um processo que estou certa vir a ter ainda muitos e sérios desdobramentos. Mantenhamo-nos atentos.

Susana de Matos Viegas
Antropóloga, Investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ex- Presidente da Direção da APA (2006-2009).

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N.º 11 (maio 2017)

O que pode(re)mos fazer? (ou o trabalho dos antropólogos)

A APA, como se sabe, não se preocupa apenas e só com os antropólogos na academia (departamentos, centros de investigação, etc.). Muitos outros de nós fazem ou tentam fazer antropologia ou são antropólogos fora destes contextos. Fora da academia, o ser antropólogo parece inscrever-se numa certa ambiguidade identitária, que, no entanto, não nos pode ou deve impedir de manter permanentemente um olhar crítico perante o que nos rodeia – e, desde logo, as condições que produzem a impossibilidade de exercermos, em muitos casos, a antropologia tal como a aprendemos. A ideia de que a antropologia é uma ciência refugiada num esquivo academismo que a afasta do mundo real é muitas vezes repetida. Um argumento totalmente falacioso. Se há virtude de que nos podemos arrogar é, sem dúvida, a da nossa proximidade a contextos vividos, a vidas concretas com especificidades únicas, a de um olhar de perto para grandes questões. Algo que em alguns países, aliás, tem valido à Antropologia ser respeitada como disciplina de vanguarda em vários domínios da esfera pública.

A pergunta que dá título a este editorial insinua-se a dois sentidos. Um primeiro, mais óbvio e (quiçá) retórico, desafia-nos a pensar as nossas competências como especialistas numa área disciplinar, em terrenos ou áreas geográficas. O que somos capazes de fazer, de facto? O que aprendemos nas universidades e nos cursos que frequentamos? Passando pelos sites das unidades de ensino e investigação que oferecem antropologia em Portugal anunciam-se caminhos possíveis para exercermos a profissão de antropólogo e percebemos o quão amplo é o escopo das possíveis saídas profissionais para os antropólogos. Não obstante, e como revelou o estudo do perfil do antropólogo em Portugal, existem ainda fortes obstáculos ao reconhecimento da profissão de antropólogo em muitos contextos laborais. Por isso, a pergunta sugere também a nossa responsabilidade enquanto associação que representa os antropólogos em Portugal. O que podemos (enquanto associação) fazer para abrir novos caminhos para os jovens licenciados que saem das universidades todos os anos? A APA tem vindo a desenvolver diálogos regulares em diferentes âmbitos (património, ambiente, território, educação) de forma a identificar e reconhecer competências na formação dos antropólogos que lhes garantam uma maior abertura em termos dos campos da sua empregabilidade. Outros domínios existem para os quais a habilitação dos antropólogos está mais do que identificada, especialmente considerando as sociedades contemporâneas como contextos complexos, multiétnicos e multiculturais.

As universidades têm aqui um papel importante, porque são elas que ocupam lugar de relevo na formação avançada. Desde logo, com a abertura aos diálogos interdisciplinares, que tanto se reivindica, mas que não pode fazer perigar as especificidades desde onde se produzem as diversidades epistémicas que asseguram a possibilidade dos encontros (a Antropologia deve e merece ser ensinada tanto quanto a Química, a Sociologia ou a História). Mas é preciso mais; é igualmente necessário que as ofertas educativas na área tenham a capacidade de se renovar a partir de uma antecipação programada do futuro e, como tal, a pergunta “o que podemos fazer?” aponta, também ou sobretudo, ao futuro. O que poderemos nós fazer? Essa é também a responsabilidade da APA em conjunto com os diferentes agentes e instituições que preparam os antropólogos de hoje e de amanhã. Suscitar necessidades de envolvimento dos antropólogos, imaginar profissões e domínios de actuação – até porque e como se vê (cada vez mais, muitos vão vendo melhor) – vários destes estão já saturados dos mesmos interlocutores e especialistas de sempre.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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N.º 10 (abril 2017)

Há mais mundo (deste) por vir?

Março passou. Mês de eleições na Associação Portuguesa de Antropologia. Muitas ideias, renovada energia, projectos encaminhados. A APA está hoje a trilhar um caminho consistente. Devagar, que assim se vai ao longe. Sem pressa, embora com a urgência de debates críticos para as ciências sociais. A existência de um secretariado profissionalizado muito tem contribuído para a visibilidade da associação como interlocutor quotidiano e presente na antropologia portuguesa e do mundo. Assegura-nos a tranquilidade e os recursos para um futuro com mais e melhor antropologia mas para o qual todos os antropólogos e antropólogas têm de contribuir com mais participação na vida da associação e ajudando a atrair mais associados. As ‘frentes de batalha’ são várias e todos não seremos muitos, especialmente num tempo dominado pela tecnocracia e a burocracia.

Foi também mês de conferência SIEF (Sociedade Internacional de Etnologia e Folclore). Muitos antropólogos e antropólogas portuguesas marcaram presença numa edição que teve como tema ‘Ways of Dwelling – Crisis – Craft – Creativity’ e no qual um antropólogo português, João de Pina-Cabral (School of Anthropology and Conservation, University of Kent), apresentou uma das suas conferências principais. “Familial persons in dark times” fala-nos de um homem, do Alentejo e de Portugal, de família e estratégias pessoais para tentar ultrapassar a austeridade. Um resgate do básico, da etnografia, da substância e do concreto; da vida das pessoas, afinal. Essa é a virtude ou uma das grandes virtudes da antropologia – uma ciência da observação. Talvez das poucas sobreviventes. Queremos olhar, contemplar, ver de e ao perto, e, sobretudo, os lados avessos da história contada pelos vencedores.

A conferência de abertura, mostrando um trabalho artístico (Refugee Republic – a digital installation) de dois não antropólogos holandeses, Dirk Jan Visser/Jan Rothuizen, é bem elucidativa de como este mundo é susceptível de nos surpreender constantemente. Afinal, um campo de 64000 refugiados (Domiz Camp, no Iraque) é fermento para novas sociabilidades, criatividades e afectividades. Não se pense que a vida acaba ali e para aqueles. Todavia, não esquecer a história e os processos que levaram e levam aquelas (tantas) pessoas ali é responsabilidade primeira dos antropólogos. Sim, não deixar esquecer!

Haverá mais mundo deste por vir?

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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N.º 9 (março 2017)

[sem editorial]

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N.º 8 (fevereiro 2017)

Bem-vindo!

A estupidez é parceira do desconhecimento e do preconceito. Da má ignorância está o mundo cheio; de homens maus e maus homens que teimam em não aprender com a história, que teimam em usar uma qualquer forma de poder para agredir muitos outros. Teimam em ser racistas, xenófobos, homofóbicos…

A APA associa-se à sua congénere americana, a American Anthropological Association, nas preocupações e repúdio pelas decisões e políticas do recente empossado presidente dos Estados Unidos da América, nomeadamente no que à imigração, refugiados e diferentes formas de discriminação e exclusão dizem respeito. E a ‘procissão ainda vai no adro’. As janelas da tolerância, do diálogo e do interconhecimento voltam a fechar-se uma vez mais. A aparente celebração da liberdade faz-se à custa (paradoxal) da sua limitação, à custa de novos muros e fronteiras que voltam a separar pessoas a partir de critérios infames e intoleráveis em pleno século XXI.

No que à antropologia diz respeito, estes tristes episódios não nos podem senão manter alertas para duas tarefas essenciais que não podemos jamais negligenciar:

1 – Conhecer sempre, mais, bem e melhor. O bom conhecimento é o único chão de onde mais liberdade, tolerância e respeito mútuo poderão brotar.

2 – Divulgar e dar a conhecer o mundo na sua diversidade, incompletude, construção e criatividade inesgotáveis e, justamente, de onde estas e outras tristes figuras emergem amiúde, enquadrando processos e mecanismos que as produzem como desejáveis aos olhos de alguns ou muitos.

Por tudo isto, e muito mais, continuemos esse nosso belo e tão necessário projecto de desvelar a diversidade cultural, experiências e subjectividades plurais. Só assim seremos eticamente responsáveis, ou seja, seremos capaz de afirmar a transitoriedade e a fluidez de todas as identidades e culturas no mundo.

Celebremos a diversidade, os fluxos, os tráfegos e os tráficos, o encontro, os diálogos.
Celebremos a antropologia como saber cada vez mais necessário num mundo em que muitos parecem querer voltar à caverna.

A antropologia pode muito bem ser a tenaz que quebre as correntes de todos aqueles agrilhoados e resignados às sombras da sua ignorância.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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N.º 7 (janeiro 2017)

[sem editorial]

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N.º 6 (dezembro 2016)

Antropologia e diálogos

Enquanto se aguardam os resultados dos concursos FCT para bolsas de doutoramento e pós-doutoramento… antropólogos e antropólogas continuam a desvelar o mundo na sua inesgotável diversidade, ou suas ontologias múltiplas, como tanto agora se afirma. Projectos feitos ou anunciados projectam uma disciplina que não perde o seu vigor e uma cuidada e sempre renovada atenção ao que nos rodeia – sempre antecipando ‘mundos por vir’ (a jeito do que anunciam Viveiros de Castro e Deborah Danowski)1.

São múltiplos os terrenos, os temas, colectivos e indivíduos que nos chegam contados num fluxo incessante de encontros com muitos ‘outros’. Caminhamos descobrindo, crescentemente em terrenos partilhados com colegas de outras ciências sociais e, cada vez mais, com ‘outros’ de outras ciências numa aparente ou inevitável convergência interdisciplinar. Estes anunciados e enunciados diálogos no âmbito de uma “antropologia simbiótica feita de comensalismos teóricos e mutualismos metodológicos”2 são um sinal claro de que os antropólogos estão seguros e são necessários em terrenos de estudo marcados por diversidades epistémicas, políticas e éticas. O Antropoceno e as alterações climáticas, que tanto ‘abalam’ seguranças e certezas do nosso devir como espécie, são áreas de estudo que vêm acolhendo paulatinamente o saber-fazer dos antropólogos e os seus contributos em termos de produção de bom conhecimento sobre questões que não são de todo apenas e só dos cientistas das ciências naturais e exactas. Num tempo marcado pelos riscos, vulnerabilidades e atitudes securitárias associadas, em todas as dimensões da experiência humana, a antropologia surge como disciplina de importante vocação para estar próximo de onde as coisas vão ganhando sentido, num crucial ‘vai-e-vem’ entre o local e o global, o micro e o macro, as estruturas e a acção, as pessoas e as instituições.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

1Danowski, D. e Viveiros de Castro, E., 2014, Há Mundo Por Vir? Ensaios Sobre os Medos e os Fins. Desterro, Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental.

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N.º 5 (novembro 2016)

Antropologia para quê e para quem?

Voltamos a reclamar o ensino da antropologia no secundário.

As perguntas que dão título a este editorial desafiam novos limites para uma antropologia que tenha mais visibilidade na sociedade portuguesa e simultaneamente novas interlocuções e interlocutores. Abrem-se nos dias que correm janelas de oportunidade para voltar a ensinar antropologia em níveis pré-universitários. Faz falta antropologia nos curricula dos estudantes em Portugal – afirmamo-lo sem reservas. Se a geografia, a história, a psicologia, a biologia, a sociologia são ensinadas, como podemos não ensinar antropologia? Pergunta tendenciosa? Porventura, mas seguramente replicável desde qualquer área de saber que se sente marginalizada nas escolas, nos media e em muitos outros lugares onde apenas alguns replicam as suas verdades vezes sem conta. Muito se fala hoje da necessidade de questionarmos certezas num mundo que parece não deixar espaço para as diferenças. Uma retórica que parece, em muitos casos, servir como um acto de lucidez tardia de muitos daqueles que teimam em domesticar os seus concidadãos numa espécie de narrativa encantatória. Sempre mais do mesmo!

A antropologia permite-nos conhecer a diversidade, a incompletude da condição humana, fazendo-nos perceber como convivem diferentes normalidades. Temos, portanto, um desafio em mãos como homens e mulheres co-responsáveis pela produção da nossa vida colectiva. Neste sentido, louvem-se as recentes iniciativas dos colegas do ISCTE-IUL, do departamento de antropologia, que numa parceria com a Câmara Municipal de Lisboa – Pelouro dos Direitos Sociais, propõem-se acolher estudantes refugiados nos cursos de licenciatura e mestrado, e do CRIA, com o curso “Living in a Different Culture” destinado aos refugiados residentes em Lisboa. 

Agora e como em muitos outros casos e situações, a antropologia está à frente de uma leitura e atitude crítica do mundo do qual todos somos parte. Uma leitura crítica que nos situa justamente em diferentes encruzilhadas éticas, políticas e epistémicas. No entanto, nunca será por ‘varrer a realidade para debaixo de um tapete’, invisibilizando-a por dela não gostarmos, que a antropologia poderá ser acusada. É aí que reside a sua força. Sempre olhando ao mundo na sua inesgotável riqueza transformadora com o desejo continuado de continuar ‘a aprender a aprender’.

Lutemos todos por esta proposta de recolocar a antropologia na vida de muitas mais pessoas em Portugal.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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N.º 4 (outubro 2016)

Como forma de contribuir para um melhor conhecimento da realidade nacional a respeito da situação dos antropólogos, a APA lançou o projeto “O Perfil d@ Antropólog@ em Portugal (PAP – APA 2014/2016)”. O objetivo central deste estudo foi caracterizar a situação da comunidade de antropólogos em Portugal, saber o que fazem em termos de formação, actividade científica e profissional e descobrir as potencialidades ou obstáculos à prática da antropologia. Este levantamento foi feito em várias etapas e recorreu a diferentes instrumentos de recolha de dados: um questionário simples, um conjunto de entrevistas qualitativas, registos vídeo e levantamento de informação dispersa relativa ao ensino e investigação da antropologia em Portugal.

O estudo envolveu uma equipa alargada e contou com o apoio de departamentos e centros de pesquisa na área da antropologia sediados em território nacional e os seus resultados foram preliminarmente apresentados no VI congresso da APA (Coimbra, Junho de 2016) e debatidos num Fórum propositadamente organizado para o efeito, no Museu Nacional de Etnologia, em 1 de Outubro do corrente ano. Foram produzidos diferentes materiais que se encontram disponíveis no site da APA para que todos os interessados os possam consultar e contribuir com críticas construtivas que permitam melhorar e dar continuidade a este projeto.

Saiu reforçada do Fórum da APA dedicado ao PAP a ideia de se constituir um grupo de trabalho que precisamente possa dar continuidade a esta premente tarefa de não só os antropólogos saberem quem são os outros, mas também como se perfila a sua própria comunidade, em termos de campo científico; para tal, urge definir uma política científica nacional que defenda a antropologia, alinhada com o que é feito noutros contextos a nível internacional (no âmbito da já longa discussão sobre a pluralidade da antropologia) – ao mesmo tempo que se insistiu na ideia de uma maior e melhor comunicação sobre o que fazem e como podem ser úteis e melhor (re)conhecidos os antropólogos na sociedade envolvente.

Restará sempre responder afinadamente qual o passado, o presente e o futuro da nossa disciplina.

Marina Pignatelli
Membro da Direção da Associação Portuguesa de Antropologia
Coordenadora do projeto PAP

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N.º 3 (setembro 2016)

Ser Antropólogo

Setembro, mês que em Portugal e um pouco por todo o mundo, marca o início de novos anos lectivos, o que também significa a admissão de muitos novos futuros antropólogos e antropólogas. É pois um tempo de ‘colheitas’, do que se foi semeando em níveis de escolaridade anteriores, do que se ensinou ou deixou de ensinar. A antropologia tem estado esquecida nos curricula das escolas secundárias portuguesas. Tempos houve em que se lutou pela presença da disciplina junto dos mais novos em Portugal com propostas rigorosas que pudessem dar competências e conhecimentos na área a muitos jovens. Uma luta, todavia e até ver, sem resultados práticos uma vez que por ora a situação não se alterou.
No entanto, o mundo aí está para nos evidenciar várias tendências; intolerâncias perante a diversidade, o outro; incompreensões entre lugares e percepções do mundo (legitimamente) não coincidentes; imposições de visões do mundo e formas de viver a quem legitimamente aspira a outras ‘coisas’. Em suma, atavismos inconcebíveis em pleno século XXI, que em muitos casos parecem resultar da falta de ‘antropologia’.
Também neste aspecto Portugal apresenta desequilíbrios significativos. Havendo excesso de formandos em determinadas áreas do saber (várias no campo das ciências sociais) – outras, no entanto, encontram-se claramente deficitárias. É este o caso da antropologia, apesar de cada vez mais a ela se recorrer e às suas ‘famosas’ ferramentas (trabalho de campo / etnografia) para legitimar aproximações mais rigorosas a um real concreto, vivido.
Também por isso, fica feito o convite para que no próximo dia 1 de Outubro, no Museu Nacional de Etnologia, participem na apresentação do estudo sobre o Perfil do Antropólogo em Portugal – um encontro que servirá para melhor conhecermos quem são os antropólogos que trabalham em Portugal, seus trajectos passados e perspectivas futuras.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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N.º 2 (agosto 2016)

A Antropologia, a Europa e o Futuro
Nos mais recentes congressos de Antropologia realizados na Europa, o futuro surge como um tema transversal. «Futuros Disputados», anunciou a APA no seu mais recente congresso, levando-nos a pensar para além do óbvio e das hegemonias que um pensamento único possa insinuar. A Europa, ou melhor uma certa Europa, convive, aliás, numa dúvida ou paradoxo permanente. Reclamando-se berço da democracia, da pluralidade e geografia privilegiada dos direitos humanos (onde se inscreve o direito à diferença) parece, no entanto, insistir no caminho único, na inevitabilidade de um devir marcado pela normalização da cultura, da economia, da ciência, da educação, da felicidade até (ao que parece, já é quantificável e certificada). A Antropologia está aí para reabrir o futuro, não o deixar inevitavelmente feito e definido a partir do jugo normativista que as políticas dominantes nos querem impor. Por isso, a importância destes congressos, onde o (re)conhecimento da diversidade se exerce pela desconstrução das lógicas e mecanismos de poder através do quais aquelas políticas uniformizadoras se constroem. Pergunta-se que futuro para a Europa, para o Mundo, para todos e cada um de nós? A APA congratula-se com a inquietude e a incompletude que se sugerem ao pensar no futuro dos humanos e não-humanos de uma forma crítica.
A Europa (que Europa? Quem em concreto?), num estado de choque por tanta coisa que parece não dominar agora – refugiados, emigração, terrorismo, fundamentalismos religiosos, reabertura de fronteiras, neofascismos – não pode continuar a pensar-se como uma «coisa feita e definitivamente definida» e olhar para o resto do mundo como uma extensão de si mesma; porque a construção dialógica da alteridade e do direito à diferença, que tanto se apregoa, só pode ser feita no (re)conhecimento efectivo de outras experiências, sensibilidades, subjectividades e pensamentos e a antropologia terá que estar sempre na vanguarda desta tão necessária, incompleta e inesgotável tarefa.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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N.º 1 (julho 2016)

Construir o Futuro e a Antropologia com todos
A APA concretiza com esta edição uma vontade que não é nova. Um dos objectivos principais da associação portuguesa de antropologia é o de comunicar e criar canais de relacionamento e interconhecimento entre todos os antropólogos falantes do português. O lançamento desta Newsletter acompanha um outro passo importante, o da profissionalização do seu secretariado. Duas realizações que nos asseguram uma maior proximidade com todos os sócios através da disponibilização de informação e uma maior regularidade na relação da associação com todos os antropólogos.
O futuro, tal como foi discutido no último congresso realizado em Coimbra (1-4 Junho 2016), não equivale a um inevitável destino mas produz-se numa diversidade de possibilidades no qual todos e todas devem envolver-se. Desde logo, no futuro desta associação e da afirmação da antropologia em Portugal e no Mundo num tempo paradoxal de crescentes trocas de olhares e diálogos entre saberes mas, igualmente, de isolacionismos identitários e disciplinares que tendem a marginalizar e a excluir outros. Todos somos outros, como sabemos ou tantas vezes esquecemos. A Antropologia como disciplina atenta ao mundo do qual faz parte, nesse seu jeito crítico de sempre se questionar, não pode deixar de participar da construção de um futuro que se faz sempre a partir d’agora. Por isso, o nosso e o vosso contributo serão essenciais para assegurar um futuro informado com mais mundo.

Humberto Martins
Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Antropologia

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