Há ciência além da FCT? | Mostra de projectos não financiados das ciências sociais e humanas

20 de Maio de 2015 | Casa da Achada – Centro Mário Dionísio (Lisboa)

As inscrições são abertas e gratuitas.

PRAZO ALARGADO: 10 DE MAIO DE 2015
Enviar proposta contendo: nome, área científica da candidatura, título e resumo do projecto (150 palavras) para o e-mail projetorecusado@gmail.com

No decurso dos últimos quinze anos, formaram-se em Portugal milhares de investigadores de alto nível, entre os quais se contam muitos bolseiros JNICT e FCT (mestrado, doutoramento, pós-doutoramento). Muitos deles viram recusados os seus projetos de investigação nos últimos concursos da FCT. Não porque não cumprissem critérios de dita “excelência”, mas porque não cabem nas atuais práticas da política daquela instituição financiadora, um dos espelhos da confrangedora ausência de uma política coerente e global para a ciência e a investigação em Portugal, e de um governo nacional que continua a considerar a emigração como uma excelente oportunidade para os jovens (cf. últimas declarações da ministra das finanças). Na prática, esta ausência de uma política a longo prazo significa uma ingerência do Estado na vida privada das pessoas, que não são livres de decidirem o seu futuro; e também o esbanjar do erário público, uma vez que se formam pessoas que depois se veem forçadas a emigrar.

Com esta iniciativa pretendemos dar a conhecer temas e projetos recusados, tirá-los da sombra dos bastidores da FCT, trazê-los à luz e debatê-los em público. Eles constituem a face oculta do muito trabalho que todos os anos é realizado na universidade e que passa despercebido, mas também constituem a face oculta da investigação que fica a meio ou da ciência que fica por produzir. Eles albergam ideias, enfoques críticos e contributos válidos para pensarmos esta sociedade em crise e refletem o trabalho de todo um tecido existente em matéria de investigação em ciências sociais e humanas, que é essencial para a renovação e o repensar da sociedade. A “excelência” e a vivacidade de um tecido medem-se, acima de tudo, pelo trabalho diário realizado ao longo de anos por centenas/milhares de investigadores de alto nível, mas cujo campo de trabalho e de intervenção tem vindo a ser drasticamente restringido. Ora, as nossas sociedades precisam fortemente das ciências sociais e humanas, para não se deixarem invadir pelo muito curto prazo e pela conjuntura, para se poderem repensar e para, no contexto do mundo atual, transformarem a crise em debates e em conflitos institucionalizáveis dos quais sairão as respostas necessárias. (Calhoun, Wieviorka: http://socio.hypotheses.org/147)

A pretexto da crise económica, as ciências sociais e humanas correm o risco de serem atingidas pelos cortes orçamentais. Mas elas correm, acima de tudo, o risco de serem desqualificadas e de parecerem inúteis ou irrisórias relativamente às dificuldades do momento. É que o poder económico privilegia, via determinados financiamentos, a investigação de caráter aplicativo. Porém, se parece compreensível que as ciências sociais e humanas, uma vez financiadas pela coletividade, respondam à demanda das políticas das instâncias que a representam e visam o interesse geral (por exemplo, através de projetos concretos relacionados com o desenvolvimento em matéria de saúde e de educação), o certo é que a investigação em ciências sociais e humanas – e não só – precisa de liberdade.

Os investigadores devem poder escolher as questões que pretendem tratar, formular as suas próprias hipóteses, decidir o método a que recorrer, etc., sob pena de se desnaturar a investigação nas suas dimensões necessariamente reflexiva e, sobretudo, crítica; e de se acabar, afinal, por transformar a investigação num serviço de peritagem comparável ao da atividade de consultor, que em si é respeitável, mas nada tem a ver com a investigação em ciências sociais e humanas.

Recusados pela FCT mas nada inúteis, os projetos que pretendemos dar a conhecer com esta iniciativa podem vir a ser uma pista para o futuro das ciências sociais em Portugal e para todas as pessoas que trabalham e investigam apesar das políticas públicas que comprometem seriamente o futuro coletivo.

A organização:
Seminário Memória, Cultura e Devir: Teoria e Caminhos nas Ciências Sociais
Associação dos Bolseiros de Investigação Científica
Associação Portuguesa de Antropologia
Associação Portuguesa de Sociologia
Associação Precários Inflexíveis
STARQ – Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia

 

Mais informações: http://projetorecusado.pt.vu

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