Carta da APA dirigida ao Ministro da Educação e Ciência

Exmº Senhor Ministro da Educação e Ciência

Professor Nuno Crato

Ministério da Educação e Ciência

Lisboa.

 

(c/c Exmª Senhora Secretário de Estado da Ciência, Exmº Senhor Presidente da FCT)

Assunto: Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e Tecnologia

Lisboa, 4 de Outubro de 2013

 

Excelência,

Foi com alguma perplexidade que a Direcção da Associação Portuguesa de Antropologia tomou conhecimento da nomeação, pelo Ministério de Educação e Ciência, de um novo Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e  Tecnologia.

Independentemente da sua composição e estrutura, assunto que já motivou uma carta conjunta dirigida a V. Exª por várias Associações Científicas da área das Ciências Sociais e Humanas, preocupa-nos o facto de, nesse novo Conselho, a Antropologia estar representada apenas por uma docente, do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, cuja actividade científica se situa fora do campo das Ciências Sociais e Humanas.

Não estão em causa, obviamente, nem a qualificação desta nossa colega como antropóloga, nem o seu mérito científico no domínio da Antropologia Biológica e Forense. Com efeito, a Antropologia, enquanto disciplina científica, tem as suas origens no pensamento evolucionista do século XIX e se, em muitos países, ela é, hoje, uma disciplina completamente distinta, mais próxima da Sociologia, da História e dos Estudos Culturais, em alguns outros, como Portugal, essa componente biológica original tem coexistido com as diferentes correntes de Antropologia Social e Cultural que se foram afirmando ao longo do século XX.

A este respeito, a posição da Associação Portuguesa de Antropologia é inequívoca, traduzindo-se no princípio que todas as variedades de antropologia praticadas em Portugal têm cabimento dentro do seu programa de actividades. Desde a sua fundação, em 1989, a APA tem contado entre os seus membros antropólogos sociais, antropólogos culturais e antropólogos físicos (ou biológicos), e o nosso recente Congresso, cujo programa envio em anexo, é testemunho da diversidade e riqueza da Antropologia portuguesa.

Mas se a Antropologia é, por razões históricas, um campo disciplinar onde coexistem especialidades que são, de um ponto de vista científico, irredutíveis umas às outras, isto não significa que, para efeitos de avaliação e financiamento da investigação, ela deva ou possa ser homogeneizada ou reduzida a qualquer das suas principais componentes, a Antropologia Social e Cultural ou a Antropologia Biológica.

Apesar de, hoje em dia, a Antropologia praticada em Portugal se situar quase exclusivamente no campo das Ciências Sociais e Humanas, a Antropologia Biológica e Forense mantém uma presença significativa em dois departamentos: no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, e na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Tem tão pouco sentido tentar enquadrar esta última nas Ciências Sociais e Humanas como teria a assimilação da Antropologia Social e Cultural à Biologia. A avaliação da investigação antropológica em Portugal deveria ter em linha de conta a diferença irredutível entre as duas, enquadrando-as, respectivamente, na Comissão Científica das Ciências Sociais e Humanidades e na Comissão Científica das Ciências da Vida e da Saúde.

É por estas razões e nestes termos que consideramos que a Antropologia portuguesa não se encontra representada de uma forma adequada no recém-nomeado Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da FCT, pelo que solicitamos a revogação da decisão que o nomeou.

Apresentamos os nossos melhores cumprimentos.

Pel’A Direcção da Associação Portuguesa de Antropologia

Robert Rowland

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