“A lista que guardo na mochila para quando me pedem para falar de Palestina/Israel” | Artigo do sócio da APA, Miguel Vale de Almeida, Professor da UC Israel-Palestina

 

Neste momento de inominável violência e multiplicação de confrontos, Miguel Vale de Almeida partilha com a comunidade APA a sua análise sobre Palestina/Israel.

 
 

A lista que guardo na mochila para quando me pedem para falar de Palestina/Israel…

Miguel VALE DE ALMEIDA
(Iscte, CRIA, In2Past)

1. A Europa construiu-se com base em duas desidentificações: criando um inimigo externo – o mundo árabe-muçulmano; e um inimigo interno – os judeus. Arabofobia, islamofobia e antissemistismo são constituintes históricas da Europa. Nunca desapareceram; em certos períodos reforçam-se; afetam diferentes setores políticos e ideológicos e de forma que não é consistente.

2. O sionismo, enquanto projeto de transformação da judeidade em nação, é um produto do nacionalismo do século 19. Foi o projeto de judeus europeus formados na ideia de estado-nação e como forma de escapar ao antissemitismo, ao falhanço da “integração” universalista nos seus países, e/ou de prosseguir ideais socialistas utópicos. A corrente messiânica não teve a força que alguns julgam.

3. Como europeus da época, e fossem eles mais ou menos religiosos, mais ou menos seculares e socialistas, os sionistas viram a Palestina otomana como colonizável, recorrendo à mitologia e à história das origens, partilhando a visão europeia que viria a estabelecer os mandatos britânico e francês, de cariz imperialista, no Médio Oriente pós-Primeira Grande Guerra. O estado de Israel foi construído de facto através do que hoje se designa como colonialismo de assentamento no mundo árabe.

4. O horror absoluto do Holocausto (por vezes esquecemos como as maiores violências foram cometidas na Europa) confirmaria, do ponto de vista sionista, a necessidade do estado. A sua declaração em 1948, sobre estruturas para-estatais já estabelecidas pelas migrações/colonizações desde a transição do XIX para o XX, geraria a Naqba, ou expulsão dos palestinianos para o exílio, e abriria as portas de Israel a todos os judeus do mundo. O “direito de retorno” e a própria existência de Israel viria a mudar definitivamente a judeidade, que deixou de ter de ser diaspórica. Permaneceram bolsas não-sionistas, mas bolsas. O que se criou foi, para todos os efeitos, um conflito pela terra e pela legitimidade. E esse “conflito”, assimétrico, não se estabeleceu entre duas entidades nacionais, mas entre um estado e uma população.

5. Os palestinianos construíram uma identidade nacional em grande medida como resultado da sua expulsão, refúgio, exílio e ocupação. Limitados à Cisjordânia e Gaza, refugiados no Líbano, Síria e Jordânia, e com sucessivas gerações espalhadas pelo mundo, além dos palestinianos de 48 (os que ficaram em Israel como cidadãos com direitos limitados), ficaram dependentes de três forças nocivas: o poderia militar de Israel; a inação ou hipocrisia dos países árabes; a não implementação, pela “comunidade internacional”, das decisões da ONU sobre o estabelecimento de dois estados.

6. A situação agravou-se, ao longo dos anos, sobretudo com dois fatores: a transformação de Gaza numa prisão a céu aberto; a ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental por um crescente número de colonatos israelitas e com violência policial e militar; a reação de setores palestinianos que optaram pela violência de atentados. Para todos os efeitos práticos, e depois do falhanço dos acordos de Oslo, a solução dos dois estados tornou-se impossível, substituída por um só estado mas com duas situações: cidadania para os judeus em Israel e ocupação militar e colonial nos territórios palestinianos.

7. A deterioração da situação nos territórios palestinianos, a dependência da Autoridade Palestiniana liderada pela OLP quer de Israel, quer da “comunidade internacional”, levou à decadência da tendência secular e socializante das lideranças palestinianas (e da situação multirreligiosa, já que percentagem significativa de palestinos são cristãos), à frustração e impotência e ao crescimento de correntes islamitas, como o Hamas (em conexão com transformações internacionais mais vastas, desde os acontecimentos no Iraque ao regime Iraniano e ao crescimento do fundamentalismo islâmico).

8. Simultaneamente, em Israel o crescimento da população religiosa substituiria a corrente sionista socialista e secular dos fundadores do estado, e a cultura de cerco, as consequências violentas da ocupação através de atos terroristas contra cidadãos em Israel, e a militarização da sociedade levariam à hegemonia da extrema-direita, de fundo xenófobo, racista e messiânico-fundamentalista. (Israel é uma sociedade muito diversa, e com uma contradição entre o projeto dos fundadores asquenazitas europeus e a maioria sefardita/mizrahi, conflito que tem contornos de classe, de etnicidade / racialização e de religiosidade versus secularismo).

9. A situação conjuntural do momento configura um confronto entre o regime de extrema-direita, arabófobo e islamofóbico de Netanyahu, e o regime islamita e antissemita do Hamas em Gaza. Milhares de judeus em Israel e no mundo não se identificam com o primeiro mas são uma minoria, e milhares de palestinianos na Palestina e no exílio não se identificam com o segundo mas receia-se que tenderão a tornar-se numa minoria.

10. Já só uma intervenção da “comunidade internacional” pode evitar futuros massacres antissemitas como os de 7 de outubro de 2023; massacres contrários à ordem internacional como a intervenção de Israel em Gaza; e evitar uma escalada internacional.

11. E nós, do lado de cá? Precisamos de compreender o efeito ventríloquo da situação em Palestina/Israel: como os posicionamentos remetem para questões históricas profundas, para sentimentos de culpa, para binarismos simplistas, para, no fundo, a(s) política(s) interna(s) das sociedades europeias. Palestina/Israel funciona – não só, mas também – como proxy de processos identitários, políticos e ideológicos europeus. Não é uma questão de somenos, pois tem efeitos nas ações, ou falta delas, bem como na linguagem e retórica usadas, face à situação em Palestina/Israel.

12. O futuro distópico: a conquista de jure, e já não só de facto, de todos os territórios palestinianos sobrantes pelo estado de Israel, com um regime de expulsão (uma nova Naqba) e/ou de apartheid, sob a égide de governos de extrema-direita, fundamentalistas religiosos e o fim das correntes seculares e socializantes do sionismo inicial. Os palestinianos ficariam (ainda mais) sujeitos a um estatuto minoritário e refugiado noutros países. Seria um etnocídio.

13. O futuro utópico: o reconhecimento internacional de que a solução dos dois estados já não é possível, e que só um estado federal poderia acomodar dois objetivos: a continuação de uma sociedade e cultura israelita que já existe por si mesma como qualquer outra, independente da judeidade diaspórica, com cidadãos autóctones que não são pessoalmente responsáveis pelo settler colonialism inicial, e mantendo-se a necessidade de um lar judeu face a um antissemitismo que não foi eliminado; e a permanência dos palestinianos na sua terra, o retorno dos exilados que o desejem, e o fim da situação de ocupação e repressão. A solução federal ou confederal teria de passar por forte ajuda internacional, políticas de ação afirmativa para criar a agora inexistente equidade entre judeus e palestinianos, pela desmilitarização, e por forte vigilância de forças de paz internacionais.

Este é o campo dos judeus progressistas e críticos do sionismo de direita, sobretudo na diáspora, e dos palestinianos frustrados com a corrupção da autoridade palestiniana e ameaçados pelo crescimento de movimentos como o Hamas.

Miguel Vale de Almeida é Professor no Iscte da cadeira Israel-Palestina e autor dos livros ‘Aliyah – Estado e Subjetividades, entre Judeus Brasileiros em Israel/Palestina’ e ‘Pedra Branca’ (com Ethel Feldman)

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